Uma espécie de parque temático dedicado à cantora Shakira foi montado no bairro de Villaverde, uma região industrial a cerca de 15 quilômetros do centro de Madri. Há uma exposição com fotos da cantora, uma biblioteca com livros de que ela gosta e até uma escultura gigante de loba. Foi construída também uma arena, onde a colombiana fez um show para 55 mil pessoas, em transmissão para todo o mundo pelo streaming Amazon Music, na noite deste sábado na Espanha. Foi a oitava das 12 apresentações da residência de Shakira na capital do país, onde ela mora atualmente. A sequência de apresentações, que integra a turnê "Las Mujeres Ya no Lloran", referente ao disco de mesmo nome lançado em 2024, só não foi mais surpreendente que a estrutura montada no espaço. O evento incluiu ainda outro palco, para cerca de 5.000 pessoas, onde aconteceu um festival chamado Es Latina, com shows de Amaia, Guitarricadelafuente e Nathy Peluso, entre outros. Por volta de 17h em Madri, enquanto manifestantes acampados na praça Puerta del Sol, no centro da capital, protestavam contra a crise de habitação, o "estádio" de Shakira estava lotado. Pessoas usando figurinos das diferentes eras da cantora ou camisetas da seleção colombiana de futebol fizeram o espaço parecer uma Disneylândia da qual Shakira era o Mickey, a Minnie e o Pato Donald ao mesmo tempo. Toda colorida, a estrutura do evento tinha um espaço chamado El Museo, com ensaios fotográficos da cantora ao longo dos anos, sob curadoria do fotógrafo Jaume de Laiguana. Os fãs fizeram fila para tirar fotos como se estivessem numa capa de disco da colombiana. Um toldo circular cor-de-rosa abrigava uma praça de alimentação logo ao lado de uma escada verde que levava, no alto, à escultura gigante de loba. Mais adiante, sob teto azul, havia uma espécie de livraria, com programação de palestras e leituras, além de prateleiras com as obras preferidas de Shakira, como as de Jorge Luis Borges a Pilar Quintana. Um mural trazia dezenas de recados de fãs à artista. Tudo desembocou no show, visto por milhões de pessoas ao redor do mundo. A apresentação foi parecida com a que Shakira fez na praia de Copacabana, neste ano. O show é repleto do discurso feminista e de autoamor —é mais bonito se amar do que amar outra pessoa, ela disse quando cantou "Soltera". Shakira subiu ao palco sob aplausos dos madrilenhos, que exibiram pulseiras brilhantes mudando de cor conforme a música apresentada. Isso gerou um efeito visual no espaço que, apesar de ter arquibancadas montadas, lembrava um estádio. "Isso é um sonho para mim", disse a colombiana, falando também em inglês, sabedora de que o show estava passando para o mundo todo. "Vou dar tudo essa noite. Tudo que tenho. É tudo para vocês." Shakira mostrou que fala a verdade não só com os quadris, mas com o corpo todo —as pernas, os braços, os ombros e também o gogó. Ela tem o balanço que é a cara da América Latina —e aparece apenas de maneira tímida nos europeus—, além de cantar como poucos no pop atual. Sua performance vocal dispensa na maior parte do tempo as "backing tracks" mecânicas e tem alcance raro. Ela foi das melodias sinuosas de influência árabe —evidenciadas em "Ojos Así"— aos graves anasalados que são sua marca desde que despontou como cantora de pop rock nos anos 1990. O show em Madri abarcou todo o universo que faz de Shakira uma das mais completas cantoras pop ao redor do mundo. "Estoy Aquí", um de seus maiores hits, veio em versão de batidas eletrônicas, que ela adotou nos anos 2000 e passou a dominar —seja no estilo mais América do Norte, como em "Hip's Don't Lie", ou do Sul, como no reggaeton "Chantaje". O diferencial do show veio no final. Primeiro com a participação de Dua Lipa, que subiu ao palco para uma versão acústica de "Antología". A colombiana e a britânica trocaram elogios e fizeram um dueto tocante em que a plateia cantou boa parte dos versos de Shakira. Depois, a estrela da noite homenageou a cidade que escolheu para morar, com "Te Dejo Madrid", lançada em 2001. Ela contou que veio à Espanha pela primeira vez quando tinha "19 anos e cabelo preto", disse que se emocionou com os madrilenhos e tocou até gaita na performance. "Whenever, Wherever", a música que marcou a explosão de Shakira nos Estados Unidos —e, por consequência, em outras partes do mundo—, de 2004, foi naturalmente cantada em sua versão em espanhol, "Suerte". "Loba", com os gritos agudos como um uivo, também veio no idioma falado na Colômbia e em Madri. A conclusão teve ainda a dupla de sucessos da Copa do Mundo, com "Waka Waka", do mundial de 2010, e "Dai Dai", do mais recente —curiosamente, os dois únicos vencidos pela seleção da Espanha. Isso além de "BZRP Music Sessions", hit da era atual de Shakira, em que ela desanca o ex, Gerard Piqué. Ao final de "Waka Waka", Shakira vinha dizendo que "isso é África", depois passou a dizer que isso era a Espanha e a América Latina unidas. Ainda que a música latino-americana ressoe há tempos nesta parte da Europa, Shakira é uma das grandes responsáveis por manter essa conexão ativa. Também por dar um pouco mais de balanço tropical à metrópole do norte que a acolheu. O show pode ser visto no Amazon Music até este domingo.
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