Raphael Montes ficou conhecido por livros com assassinatos grotescos, pactos suicidas e rituais de canibalismo. Agora, seu novo romance ousa com outros ingredientes: orgasmos atordoantes, gente nua amarrada entre lençóis e um brinquedinho que dá choques leves no mamilo. É quase irônico que este lançamento, "A Estranha na Cama", esteja sendo tratado como sua primeira obra para o público adulto. Não é como se, antes, o escritor fizesse literatura só para baixinhos. "Sexo é mais polêmico que violência. Falar de liberdade sexual, de desejo, de tesão, incomoda mais", resume o autor, ressaltando que seus livros costumam saltar entre gêneros e estilos, mas concordando que este deve atingir um público mais maduro. "E também vai interessar a uma juventude que tem investigado suas próprias sexualidades." Se fez um "whodunit" brutal em "Suicidas", um noir em "Uma Mulher no Escuro" e um suspense doméstico em "Uma Família Feliz", agora quis cair de cabeça no thriller erótico. É um de seus gêneros prediletos —aquele em que o arrepio na espinha vem tanto do medo quanto do tesão, em que o jogo de sedução entre quatro paredes é vital para descortinar relações de poder que descambam em casos de polícia. A narrativa de "A Estranha na Cama" parte de um casal maduro que abre seu relacionamento quando o desejo entre eles arrefece. Os ricaços Laura e Diego convidam a jovem Vivian para seu primeiro ménage à trois, em uma cena de abertura que deixa qualquer cristão pegando fogo. Não demora para que a noite se desvirtue em tragédia. E bem ao estilo de Montes, o leitor vai descobrindo, com revelações a conta-gotas, que nada daquilo é o que parecia. Para começar, Vivian nem se chama assim —e é bem menos estranha do que aparenta. Montes experimenta com uma história contada pela contraposição de diferentes versões —assim como em "Suicidas", por exemplo, o enredo se constrói a partir de depoimentos colhidos a posteriori pelas autoridades. E diz que tentou evitar a vulgaridade à la "Cinquenta Tons de Cinza", mesmo em um texto recheado de vocabulário picante. Tudo a Ler Receba no seu email uma seleção com lançamentos, clássicos e curiosidades literárias Será que a geração Z, que muito se diz avessa a cenas de sexo, vai embarcar em uma narrativa como essa? "O que as pessoas não gostam é do sexo gratuito, assim como não gostam da violência gratuita", diz Montes. "O problema não está em ter o sexo. Está em ter sexo que não serve para nada, que não tem dramaturgia." O autor brinca que uma de suas leitoras fiéis, ao saber da sinopse do novo livro, comentou que agora Montes tinha mexido com o tema que mais lhe dava pavor na vida: o relacionamento aberto. Não é o único aspecto que dá fôlego de novidade ao thriller, povoado por casais de sexualidades fluidas, aplicativos de paquera e brincadeiras para esquentar o orgasmo. A asfixia erótica, prática que retarda e amplifica o gozo, cumpre papel determinante. O autor e a Companhia das Letras alinharam para que "A Estranha na Cama" fosse seu primeiro inédito lançado numa Bienal do Livro —a versão paulista do evento começa nesta sexta e vai até o próximo domingo, dia 13. Na última edição carioca da Bienal, os cinco livros mais vendidos da editora foram de Raphael Montes. Além de best-seller com celebridade cimentada em eventos literários, o autor está se tornando uma indústria de si mesmo. As filmagens da adaptação cinematográfica do novo livro já acabaram, com Paolla Oliveira e Emílio Dantas na pele do casal mais velho e Bella Campos como "Vivian". Vera Fischer e Paulo Betti também estão no elenco do longa dirigido por Esmir Filho, de "Homem com H", e produzido pela Netflix ao lado da Fábrica e da Casa Montes, empresa fundada pelo escritor. A estreia será em 2027. A quase simultaneidade entre livro e filme já tinha sido experimentada, com leves diferenças, no lançamento de "Uma Família Feliz". Montes se tornou midas do audiovisual tanto ao adaptar sua própria obra, como em "Bom Dia, Verônica" ao lado de Ilana Casoy, quanto ao criar tramas originais como a novela "Beleza Fatal". O autor brasileiro agora tem se espraiado também em terra estrangeira. A tradução de seu best-seller "Jantar Secreto" acaba de sair nos Estados Unidos pela Celadon Books, braço da prestigiosa Macmillan. Foi o primeiro livro estrangeiro que o editor Ryan Doherty decidiu traduzir na casa. "O livro flui como um thriller internacional. Adoro sua brasilidade, mas ele poderia ser ambientado em Nova York e seria igualmente interessante", diz Doherty, que já comprou também os direitos para publicar "A Estranha na Cama". "É uma literatura diferente, mas não estrangeira a ponto de alienar ou parecer desafiadora demais ao leitor de um thriller comercial nos Estados Unidos." É uma popularidade já atestada por uma Bienal que volta a ter Montes como um de seus grandes destaques —ele fará em torno de dez encontros com leitores para autógrafos ao longo do evento. Assim como Montes, o megaevento paulista também se inclina em direção a um público mais maduro. Já eficaz em atrair multidões em idade escolar para o Anhembi, a Bienal agora faz uma seleção mais cuidadosa de eventos para os mais velhos à noite. "Vimos potencial de crescimento do público adulto nas franjas de horário que não costumam estar lotadas e que sejam adequadas a esse público, que vem depois do trabalho", diz Luciano Monteiro, diretor de comunicação e sustentabilidade da Câmara Brasileira do Livro. Num mundo literário dominado pelo pop, quem diria que o adulto voltaria a ser objeto de desejo.
Sexo � mais pol�mico que viol�ncia, afirma Raphael Montes sobre livro er�tico
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