"Seu marido não se incomoda?" Essa é a pergunta campeã de audiência toda vez que comento que tenho uma viagem marcada com as minhas amigas. O olhar de quem questiona vem sempre carregado de espanto, como se eu estivesse prestes a cometer um crime contra a instituição familiar. Mas o cenário fica ainda pior quando a dúvida muda de verbo e vira um "mas ele deixa?". Assim mesmo, como se o homem tivesse o poder de determinar qualquer passo da minha vida ou se eu precisasse de um alvará para fazer uma mala. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Claro que em uma relação saudável tudo é combinado. A gente alinha agenda, organiza a logística doméstica, planeja os dias —afinal, alguém precisa cuidar dos dois gatos. Se apenas um vai se ausentar, o outro pode assumir a tarefa. Mas conversar é bem diferente de negociar a própria autonomia. A minha liberdade é inegociável e certamente sigo casada há 14 anos porque isso é respeitado. Quem pede permissão para sair na rua é criança; dois adultos que dividem o mesmo teto apenas avisam e se acertam. O interrogatório nunca para por aí. A fiscalização da felicidade alheia é incansável e segue um roteiro previsível: "Ele não tem ciúmes?", "E você tem coragem de largar o coitado sozinho?". Essa última me diverte. O que apavora essa patrulha, claro, não é a louça acumulada na pia, mas o fantasma da traição. É fascinante a ideia de que a fidelidade só sobrevive sob regime de tornozeleira eletrônica conjugal. Aviso que, em 2026, um homem feito já consegue dominar os próprios instintos e fazer escolhas conscientes. Além disso, meu companheiro sabe usar o fogão, conhece os botões da máquina de lavar e sobrevive perfeitamente sem mim. Quando percebem que o argumento do abandono não cola, partem para a psicanálise de botequim: "O casamento de vocês deve estar em crise", "Para viver assim, era melhor continuar solteira". Para muita gente, casar significa grudar na outra pessoa para todo o sempre, fundindo os CPFs e anulando tudo o que existia antes. Eu boto o pé na estrada sozinha desde a adolescência. Já viajava com a minha turma muito antes de pensar em dividir minhas gavetas do armário com outra pessoa. Essas mulheres estão comigo há décadas, em laços bem mais antigos que a minha própria união. Isso não significa que elas sejam mais importantes que o meu parceiro, afinal, o afeto não opera na lógica da concorrência e o amor dispensa hierarquias. Elas apenas ocupam um espaço único e sagrado na minha história. O que me sufoca no dia a dia não é a vida a dois, mas a rotina adulta. O excesso de trabalho, os compromissos sem fim e os boletos vão nos soterrando aos poucos. Falta tempo para ser a pessoa leve, divertida e bagunceira que eu sempre fui. Minhas amigas são a ponte mais direta com a minha essência. São elas que me resgatam do cansaço e me trazem de volta para mim. Por isso, preciso desses encontros para quebrar a monotonia e faço questão de embarcar com elas pelo menos uma vez por ano. E quer saber? Meu marido adora me ver feliz e solta pelo mundo. Ele se apaixonou exatamente por essa mulher livre e dona do próprio nariz, não por alguém que vive na sombra dele. Quando retorno dessas temporadas de risadas e bagunça, volto mais inteira, mais alegre e muito mais disposta a viver o nosso amor. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Seu marido deixa voc� viajar sozinha?
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