"A imprensa está suficientemente atenta para não ser instrumentalizada por ações e vazamentos que podem contribuir para a deslegitimação das instituições republicanas justamente às vésperas das eleições?" Essa pergunta foi enviada à ombudsman pelo leitor Mauricio Bonetti, 40, empresário de Curitiba (PR). É esperado que a imprensa esteja atenta, mas talvez seja otimismo demais acreditar que não haja instrumentalização, seja ela dolosa ou culposa, "sem intenção". Um caso ilustrativo reapareceu justamente com a retirada de parte do sigilo do caso Master, depois que o presidente do STF, Edson Fachin, pediu a liberação e foi atendido pelo ministro André Mendonça. Segundo a Polícia Federal, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro conseguiu acesso a informações sigilosas sobre a investigação da qual era alvo. Para tentar fugir da prisão, teria "esquentado" essas informações vazando-as para o site de um jornalista "apontado pela PF como beneficiário de repasses financeiros do esquema". A partir da reportagem sobre a existência do inquérito, o advogado de Vorcaro teria utilizado "a publicação como fundamento para protocolar uma petição urgente em busca de acesso aos autos, que até aquele momento corriam sob sigilo". O jornalista nega ter feito parte do esquema. Sem querer ou querendo, o vazamento não existe sem interesse do vazador, embora nada impeça que a publicação atenda também ao interesse público. No caso Queiroz, por exemplo, o Estado revelou a existência de um relatório do Coaf que apontava "movimentação atípica de R$ 1,2 milhão em uma conta no nome de um ex-assessor do [então] deputado estadual e senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) —filho mais velho do [então] presidente eleito Jair Bolsonaro— entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017". O resto, como se diz, é história. "A gente, hoje em dia, basicamente noticia vazamento. E vazamento tem lado. E se todo dia tem um vazamento espetacular, você de certa maneira é profissionalmente obrigado a cobrir esse vazamento espetacular e amanhã você cobre o segundo vazamento espetacular e no terceiro dia, o terceiro vazamento espetacular. Se todos os vazamentos estiverem sendo feitos pelo mesmo lado, você acabou de desequilibrar a tua cobertura", afirma o fundador da revista piauí, João Moreira Salles, em entrevista a alunos do curso de jornalismo da Faap na última semana. "No limite, a decisão, digamos, equilibrada e correta seria não dar. Chega um momento em que você claramente está sendo operado pelos vazamentos", diz ele. Em seu Manual da Redação, a Folha "recomenda cautela na utilização jornalística de vazamentos, que frequentemente servem a interesses específicos e revelam apenas parte de um contexto". Desprezar o vazamento, por outro lado, pode também ser visto como atitude antijornalística. Se o jornal não pode abrir mão de publicá-lo, o cuidado máximo com contextualização e proporção é fundamental. Exemplo recente que gerou controvérsia é o chamado caso "Lulinha", que ganhou projeção maior depois do surgimento do caso Dark Horse —pelo qual o candidato do PL à presidência, Flávio Bolsonaro, é investigado. Em agosto, a Folha divulgou seguidamente informações de documentos da PF que teriam embasado inquéritos sobre suspeitas de tráfico de influência e corrupção contra Fábio Luis Lula da Silva, filho do presidente Lula que foi apelidado de "Lulinha" pela oposição e pela imprensa. Se há indícios, é preciso mesmo ir atrás deles. O material publicado, porém, soa mais fraco do que a estridência das manchetes faria supor. Segundo um dos textos, a lobista Roberta Luchsinger, também investigada, "diz que comentou o assunto [negócios do 'Careca do INSS'] com o filho do presidente, e que seria bom ‘o Fábio se mexer’". A dúvida era se a acusação era mesmo de tráfico de influência ou se ela o acusava de ser um banana. Faltava, ainda, informar que o filho do presidente não tem foro privilegiado, apesar de o caso permanecer no STF. Sobre "Lulinha", aliás, chama a atenção que o jornal não tenha fotos recentes do filho do presidente. Alternam-se duas imagens: uma de 2010 e outra mais recente, de 2018, tirada na missa de um ano da morte de Marisa Letícia, mãe do personagem. Nesta semana, sem vazamento, veio o texto "Condomínio de luxo de Lulinha na Espanha tem spa e tirolesa", em que o jornal visitou o local onde viveria Fábio Luis, com "amplos jardins, spa, tirolesa e apartamentos que podem custar 5.500 euros por mês de aluguel, o equivalente a R$ 32 mil". "Achei a matéria bem sem noção e enviesada. Qual o ilícito? Lulinha é candidato? Que pelo menos haja imparcialidade e o jornal mostre também as casas dos outros igualmente suspeitos de envolvimento no caso Master e INSS", escreveu a leitora Marcia Meireles, de São Paulo. No início de agosto, a Folha informou que os inquéritos do caso "Lulinha" (uso as aspas após sugestão de Ruy Castro) teriam sido responsáveis por acirrar a briga entre Mendonça e PF. As publicações com os vazamentos apareceram alguns dias depois. Mauricio Bonetti, o leitor que fez a pergunta lá de cima, já tinha uma resposta na sua própria mensagem: "O jornalismo não deveria apenas reproduzir um vazamento, mas também investigar sua origem, seu timing, seu contexto e os possíveis interesses envolvidos". E, sempre que possível, evidenciá-los para o leitor. Numa publicação no Instagram, o repórter João Batista Jr., da piauí, contou os bastidores de como a revista colocou no ar reportagens sobre as relações de ministros do STF com Vorcaro (incluindo a suspeita da PF de que Dias Toffoli fosse o beneficiário final de um fundo que recebeu R$ 35 milhões) praticamente ao mesmo tempo em que o tribunal liberava os primeiros documentos do caso Master, na noite da última quinta (10). "O [repórter] Breno Pires havia recebido de uma fonte o arquivo com quase 200 páginas preparado pela PF e que o STF escolhera deixar escondido. Os documentos expunham as entranhas das ligações entre Daniel Vorcaro e Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, com os episódios Tayayá e Macallan bem esmiuçados, além do papel de Fábio Faria nessa triangulação. Era domingo à tarde. Eu e [a repórter] Ana Clara Costa íamos entrevistar a diretora do The Kyiv Independent dentro da programação do Festival Piauí de Jornalismo. (...) Quinta-feira, após pedirmos 'outro lado' a todos os ministros do STF, circulou em Brasília a informação de que a piauí viria com um furo e que o STF retiraria o sigilo, algo que poderia desidratar a nossa apuração. As reportagens foram publicadas às 23h. O celular de todos os envolvidos não parou desde então." Newsletter da Ombudsman Inscreva-se para receber no email a coluna que discute a produção e as coberturas da Folha LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Ser ou n�o ser instrumentalizada por vazamentos
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