Ser� Lula capaz de pacificar o Brasil?

Ser� Lula capaz de pacificar o Brasil?

Demitir um funcionário, negar serviço a um cliente ou se recusar a tratar um paciente por posicionamento político são condutas ilegais. Mas isso não está dissuadindo eleitores de Flávio que promovem represálias econômicas a quem votou em Lula, que incluem também o boicote a empresas e o fim de doações filantrópicas. Quando questionados, muitos replicam que foi a esquerda que começou esse jogo. E eles têm um ponto: em diversos meios, boicotes velados por motivo político são comuns. Nas artes, na academia, em muitas Redações; é difícil um direitista prosperar. Essa cartada do "não fui eu quem começou", contudo, além de justificar uma conduta que se condena no outro, em geral leva o jogo a um novo patamar. Boicotes a grandes empresas ou preconceito dentro de certos ambientes são coisa bem diferente de demitir uma empregada doméstica ou ainda fazer uma lista negra de pequenos negócios de cada cidade por conta do voto de seus donos. Que tipo de sociedade estamos criando, em que não conseguimos mais nos relacionar positivamente com quem vota diferente? Além de eticamente condenável, é má estratégia política. Se você está frustrado por ter perdido uma eleição, agir de forma mesquinha contra eleitores do outro campo não só não trará mais adesões futuras como aumentará a antipatia para com seu lado, tornando ainda mais difícil virar votos e conquistar indecisos no futuro. Imagino que o movimento perca força nas próximas semanas. Quantos realmente estarão dispostos a perder bons profissionais ou abrir mão de bons serviços por conta de voto? O desejo de vingança depois de uma derrota que contrariou todas as expectativas é parte do processo de lidar com a perda. Mesmo assim, marca um novo passo no aprofundamento da divisão política, ou seja, da polarização afetiva da sociedade. E motivos não faltam para ela se aprofundar ainda mais. As dúvidas sobre o sistema eleitoral só cresceram com esse segundo turno. Com a vitória de Lula, aumentam as chances de Alcolumbre se reeleger presidente do Senado e Alexandre de Moraes chegar a presidente do Supremo. Enquanto isso, o encerramento paulatino das muitas frentes do inquérito das fake news, agora sob relatoria de Fachin, tem revelado arbitrariedades que vigoraram por anos a fio. Quando o inquérito finalmente se encerrar e vier a público, a indignação contra o Supremo aumentará ainda mais. Para completar o coquetel, tudo indica que 2027 será um ano de ajuste econômico, de crescimento baixo e cenário externo turbulento, aumentando o descontentamento geral. Tudo conspira para nos polarizar. Dado que estamos no Brasil, duvido que rumemos para a rebelião popular; mas uma política disfuncional e relações humanas desgastadas já são negativas o suficiente. Será necessária muita habilidade política de nossos líderes para mudar essa direção nos próximos anos. A Lula foi dado um inédito quarto mandato. Ele tem a chance de pacificar o país, de encerrar com magnanimidade sua trajetória política de líder democrático mais longevo da história do Brasil. A questão é se quererá. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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