Sepultura, ao vivo, mostra por que faz parte da vida de tantos f�s

Sepultura, ao vivo, mostra por que faz parte da vida de tantos f�s

Tinha 15 anos quando vi um show do Sepultura pela primeira vez. Era uma noite fria em Porto Alegre, e a banda estava na turnê de "Against", disco de 1998 que marcou a entrada do vocalista Derrick Green. Daquela noite, guardo alguns flashes. As imagens vão ficando mais nítidas conforme o tempo passa e eu vejo mais shows da banda —outro em Porto Alegre, um no Rock in Rio, diversos em São Paulo e um no interior da Holanda. Tudo culminou na apresentação da noite desta quinta-feira, no Cine Joia, em São Paulo, o penúltimo show do Sepultura. O quarteto vai encerrar as atividades, depois de 42 anos, com um concerto derradeiro, no Suhai Music Hall, também na capital paulista, neste sábado. Eu e a maioria das mil pessoas que estavam na casa de shows no bairro da Liberdade conhecíamos em detalhes o repertório, músicas que foram a trilha de diferentes fases das nossas vidas. Fui adolescente e virei adulto, batendo cabeça em repetidas audições dos discos da banda, curioso com cada escolha artística deles. Mesmo com a familiaridade, as mais de 20 músicas que o Sepultura executou nesta quinta ganharam uma energia nova, crua e urgente. A bateria soava mais seca, como se saída de um disco de metal dos anos 1980; a guitarra era mais distorcida; o baixo vibrava no corpo; o vocal se ouvia mais rasgado. Talvez pelo tamanho menor do Cine Joia, talvez por ser uma das últimas vezes do Sepultura no palco, a sensação foi a de ver uma banda tocando na garagem de casa para amigos. Só que essa banda é uma das melhores da história da música pesada. Eles iniciaram com as três primeiras faixas do disco "Arise", de 1991, e já de largada o público abriu rodas de pogo gigantescas, uma massa uniforme em sintonia com a música. As pessoas cantavam tão alto que às vezes não dava para ouvir o vocalista. Fãs subiam no palco e se jogavam nos braços da plateia a todo momento, o que criava uma comunhão com o público. A banda parecia curtir, e emendou três faixas do disco "Beneath the Remains", de 1989. A certa altura, o guitarrista Andreas Kisser agradeceu ao vocalista por ter entrado para o Sepultura num dos momentos mais difíceis da banda. Derrick Green assumiu o microfone depois da traumática saída de Max Cavalera, que deixou o grupo no fim da turnê do disco "Roots", de 1996, no auge da fama da banda. O álbum seguinte, "Against", já com o americano nos vocais, "nos deu força para continuar, contra tudo e contra todos", disse o guitarrista. Deste disco, eles tocaram a faixa-título, um hardcore veloz criado num momento de renovação do grupo e que rompia com o passado do Sepultura, estética e filosoficamente. Eles também mostraram três músicas do último EP, lançado neste ano, incluindo a balada "Beyond the Dream", com uma letra sobre todas as conquistas da banda. Mais para o final, tocaram "Orgasmatron", cover do Motörhead amada pelos fãs, e algumas faixas clássicas do disco "Chaos A.D.", de 1993. Enquanto eles executavam, com muita garra, as canções de encerramento —"Attitude", "Ratamahatta" e "Roots"—, pensei na importância do Sepultura. Com músicas como essas, eles expandiram os limites estéticos do metal ao incluírem berimbau, percussão brasileira e letras em português nas canções. Também lembrei onde eu estava ao ouvir essas ousadias sonoras pela primeira vez, e de todas as outras vezes em que os vi tocarem ao vivo. Obrigado, Sepultura, por terem mudado a história da música. Obrigado por fazerem parte da minha vida há 28 anos.

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