Sem se explicar a seus eleitores, Fl�vio deixa o pa�s com pecha de culpado e fuj�o

Sem se explicar a seus eleitores, Fl�vio deixa o pa�s com pecha de culpado e fuj�o

A fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL) do Brasil abre um precedente político na trajetória já conturbada do candidato derrotado à Presidência da República no último domingo (25). Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Depois de uma campanha polarizada, acusatória e polêmica, com ataques de lado a lado sobre lisura e corrupção, o senador parece que mordeu a própria língua, caindo na armadilha que criou ao longo de sua campanha: a suspeição sobre os supostos crimes pelos quais vem sendo investigado, tanto pelo STF (Supremo Tribunal Federal) quanto pela PF (Polícia Federal). Sem acusação formalizada, vestiu a carapuça criminal e fugiu do país, com mulher e filhas. O ato, que nada tem de intempestivo, haja vista a montagem do aparato da rota de fuga, lembra cenas do filme de ação "Catch Me If You Can" ("Prenda-me Se For Capaz", 2002), em que um falsário e mentiroso vivido por Leonardo DiCaprio busca escapar do cerco da polícia por todos os meios. O roteiro de fuga, que envolveu o cruzamento de fronteiras por terra e o embarque em um jato privado rumo aos Estados Unidos, revela que o plano de contingência estava traçado muito antes do fechamento das urnas. Ao desobedecer a ordem do ministro Alexandre de Moraes para entregar seus passaportes, Flávio não apenas confirmou os piores prognósticos da PF, mas operou uma autoincriminação pública. O discurso inflamado de segunda-feira (26), quando jurava que ficaria no país para "liderar a oposição" a Luiz Inácio Lula da Silva (PT), desfez-se no ar na manhã de terça-feira (27), quando seu silêncio cheirou não só a antecipação de culpa, como a quebra de compromisso com os partidos que o apoiaram e com os quase 60 milhões de votos que recebeu das urnas, que elegeram, sem contestação, a maioria dos seus apoiadores. Há um forte componente de ironia histórica nesse desfecho. Durante toda a campanha, o clã Bolsonaro tentou colar em Lula a pecha da ilegitimidade e do desvio ético. O veredito das urnas, contudo, não apenas marcou a quarta vitória do petista em eleições presidenciais, com uma virada inédita, mas também empurrou o herdeiro do bolsonarismo para o labirinto de suas próprias pendências judiciais —que vão da lavagem de dinheiro no caso das plataformas de apostas ao financiamento obscuro do filme-propaganda "Dark Horse", tema da coluna na semana passada. Ao buscar o asilo político sob as asas de Donald Trump, o presidente mais impopular dos Estados Unidos, Flávio revive o gesto de covardia política de seu pai ao final de 2022. Neste caso, o bolsonarismo, que se pretendia uma força de ocupação permanente do estado brasileiro, sob pressão, opera de modo contrário —defendendo a debandada. Já Lula, agora reeleito, no passado optou por se entregar à PF para desmascarar seus acusadores. Com isso ganha argumento poderoso: o de quem ficou e venceu, contra o de quem correu e se autoincriminou. A atitude do senador acirra em Brasília corrida pela liderança do espólio bolsonarista. A disputa recria novo tipo palanque –espécie de terceiro turno eleitoral—, agora digladiado entre a direita e extrema direita. Ao fugir antes mesmo de perder o foro privilegiado, o que aconteceria em fevereiro de 2027, Flávio joga no lixo o anseio de seus milhões de eleitores para focar a própria sobrevivência. O salvo-conduto patrocinado por Trump para mantê-lo ileso em solo americano e fora do alcance da justiça brasileira carimba seu passaporte biográfico com a tinta de culpa confessada. Ao escolher o autoexílio, onde se junta ao irmão Eduardo, Flávio decreta sua falência política e deixa o caminho aberto para o nascimento de uma nova liderança na família —provavelmente de Michelle Bolsonaro— ou abre caminho para a direita não bolsonarista ocupar o vácuo de poder. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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