Sem predador e com at� 20 cm, r�-touro amea�a fauna em Florian�polis

Sem predador e com at� 20 cm, r�-touro amea�a fauna em Florian�polis

Em uma região rural de Florianópolis, o aparecimento de anfíbios grandes, esverdeados e de coaxar barulhento acendeu um alerta entre biólogos de Santa Catarina. Originária dos Estados Unidos e introduzida no Brasil no começo do século 20 para produção de carne destinada ao consumo humano, a rã-touro tornou-se uma ameaça ao ecossistema local. Desde o primeiro registro da espécie na capital catarinense, em outubro de 2025, foram identificadas 11 exemplares em três pontos do bairro Ratones, na região norte da ilha. A rã-touro é o nome popular da Aquarana catesbeiana. Ela pode atingir entre 15 e 20 centímetros de comprimento, não possui predadores naturais no país e se alimenta de peixes, pequenos répteis, mamíferos e outros anfíbios. Sete adultos e três jovens foram capturados no ano passado, e outro indivíduo, em março deste ano, segundo a Floram (Fundação Municipal do Meio Ambiente). A Floram disse, em nota, que recebeu dois registros de possíveis avistamentos e está organizando vistorias para verificar as ocorrências. Planeta em Transe Uma newsletter com o que você precisa saber sobre mudanças climáticas O professor Paulo Garcia, chefe do departamento de zoologia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), diz que o caso é preocupante por ser uma rara ocorrência de rãs-touro em um local onde não há criação comercial do animal. Não há ranários registrados na ilha de Santa Catarina. Como são uma espécie exótica que não pode ser reintroduzida no ambiente, todos os animais capturados são sacrificados. Amostras de pele e fígado são coletadas para análise de doenças. De acordo com o professor, o estudo da saúde dessas espécies invasoras é fundamental para construir uma estratégia de prevenção. O docente afirma que a criação de rãs para consumo de carne começou no Brasil na década de 1930 e se popularizou no estado entre as décadas de 1960 e 1970, mas o elevado custo da produção causou dificuldades ao setor. "Ao longo desses anos de criação de rãs, muitos animais escaparam dos criadouros, seja por manejo inadequado, seja porque os criadores, ao perceberem que não conseguiam obter renda com a atividade, acabavam soltando os animais em açudes. A partir disso, essas rãs se dispersaram pela natureza e passaram a se reproduzir em ambiente natural."As duas principais hipóteses para a presença das rãs-touro em Florianópolis, segundo Garcia, são de que girinos tenham chegado com a compra de peixes para açudes ou de que moradores tenham introduzido matrizes ou girinos por conta própria. Entretanto, segundo o professor, identificar a origem da invasão não é prioridade neste momento, porque isso poderia inibir moradores de comunicar novos registros da espécie. A Prefeitura de Florianópolis diz, em nota, que intensificará o trabalho de busca a partir de setembro, quando começa o período reprodutivo da espécie. Nessa fase, é possível retirar casais e fêmeas com ovos antes da desova. O trabalho é dificultado no inverno, período de baixa atividade para anfíbios. Garcia alerta que a rã-touro é vetor de um fungo causador da quitridiomicose, doença responsável pelo declínio de anfíbios no mundo inteiro. O animal também pode hospedar ranavírus, que ataca anfíbios, répteis e peixes, além de carregar parasitas, como nematoides, transmissíveis à fauna nativa. Ele acrescenta que exemplares encontrados na natureza não devem ser consumidos devido ao risco de doenças parasitárias. A Floram orienta que a população não tente capturar as rãs-touro. Em caso de avistamento, a recomendação é registrar o local, enviar uma fotografia do animal, se possível, e comunicar a prefeitura. O ruído produzido pela rã, alto e grave, também pode ajudar na identificação da espécie. Conforme o pesquisador, há duas estratégias de manejo, que precisam ser avaliadas após um estudo da situação na ilha. "O ideal seria a erradicação total, mas isso a gente só vai conseguir fazer se a população tiver se espalhado muito pouco." Caso não seja viável, uma alternativa é concentrar o manejo para conter a expansão da espécie, mapeando seu habitat para impedir o avanço sobre áreas de proteção ambiental. O professor diz que há presença de rãs-touro em outros estados das regiões Sul e também no Sudeste. A dispersão é favorecida pela semelhança do clima com o da área de origem da espécie nos Estados Unidos. Atualmente, em Santa Catarina, a produção de rãs para consumo humano é concentrada no oeste do estado. O professor defende uma fiscalização mais rigorosa dos ranários para evitar novos escapes e a perda do controle sobre a dispersão das rãs-touro. "A fiscalização saiu do governo federal e passou para os municípios, e os municípios não têm a capacitação correta para fiscalizar e para licenciar esse tipo de instalação." Entretanto, o professor vê no setor de ranicultura uma alternativa econômica viável quando conduzida dentro das normas. "Nossa preocupação não é evitar a criação. É evitar que o escape desses criatórios acabe prejudicando a fauna nativa."

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