"Sou o que deixaram. Sou toda a sobra do que roubaram." Uma canção conquistou um lugar cativo nas aulas sobre a América Latina das universidades nos Estados Unidos: "Latinoamérica", da banda porto-riquenha Calle 13. Foi minha filha quem me apresentou. Na primeira vez que ouvi, chorei. Outras vezes, também. A vida de expatriada me trouxe algo além da saudade: distanciamento crítico. O Brasil ganhou contorno e eu logo me descobri mais próxima dos vizinhos latinos do que da Europa dos meus bisavós. Esse redescobrimento do Brasil te parece óbvio ou absurdo? Temos os dois times. O fato é que nossas raízes vêm de diversas partes do mundo, mas não dá para ser brasileiro sem ser latino-americano. Os versos de "Latinoamérica" percorrem nosso histórico de séculos de exploração e enumeram as feridas do continente, que temos tanta dificuldade em deixar cicatrizar. Mas não só isso. A canção exalta o que vem sobrevivendo às feridas: a resistência, a solidariedade, a cultura, a força do coletivo. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Lançado em 2010, esse sucesso da Calle 13 ganhou prêmios, faz parte do currículo de dezenas de universidades e é tema recorrente de estudos acadêmicos. Mas a América Latina que a canção apresenta segue vivendo entre o amor e a cólera. Como diz a música, somos "um povo sem pernas, mas que caminha". E, a cada eleição, a cada praça cheia, a cada filha que ensina uma canção à mãe, caminhamos mais um pouco. Resta saber se para a frente ou para trás.
'Sem pernas, mas que caminha'
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