Sem Mar�a Corina, Venezuela inicia 1� negocia��o sob tutela dos EUA entre regime e oposi��o

Sem Mar�a Corina, Venezuela inicia 1� negocia��o sob tutela dos EUA entre regime e oposi��o

Dois anos após a provável fraude eleitoral que reconduziu Nicolás Maduro ao poder pela terceira vez, o regime da Venezuela volta a negociar com a oposição —desta vez, sob a tutela dos Estados Unidos e enquanto ainda vive o luto de um terremoto que matou milhares de pessoas há pouco mais de um mês. Chegam à mesa neste sábado (1º) Jorge Rodríguez (presidente da Assembleia Nacional e irmão da Delcy Rodríguez, número dois do regime e substituta de Maduro após o líder ser capturado e levado à Nova York em janeiro) e Dinorah Figuera, presidente da Assembleia Nacional de 2015 —única instituição venezuelana reconhecida por Washington. São as ausências, porém, que mais chamam a atenção. A principal delas é a de María Corina Machado, líder da oposição do país sul-americano e Prêmio Nobel da Paz do ano passado. A despeito das constantes deferências ao presidente americano, Donald Trump —incluindo a entrega da medalha do Nobel—, Washington tem descartado repetidamente a participação da política no processo. Fora do país desde a véspera da cerimônia em Oslo que lhe concedeu o prêmio, em dezembro de 2025, María Corina vem sendo citada por outros opositores como uma figura essencial para um acordo. Cercanías A newsletter da Folha sobre América Latina, editada pela historiadora e jornalista Sylvia Colombo "Uma negociação que exclua María Corina Machado e tudo o que ela representa está fadada ao fracasso", afirmou em suas redes sociais o ex-candidato presidencial Henrique Capriles. "Como já afirmamos, a partir de 1º de agosto, convidaremos todos os setores democráticos a participar e contribuir com propostas para enriquecer o roteiro. María Corina é muito importante neste processo", disse, por sua vez, Dinorah dias depois. Sem comentar a manobra que a deixou de fora da mesa, a engenheira afirmou na semana passada que não será um obstáculo "a nenhuma iniciativa que produza avanços reais". "Vamos avaliá-lo com base nas ações concretas e verificáveis: a recuperação das instituições democráticas, a liberação de todos os presos políticos, garantias reais para todos os atores políticos, sem exclusão, um cronograma eleitoral presidencial oportuno e o pleno respeito à soberania popular", afirmou em suas redes sociais. Analistas avaliam que, de qualquer forma, a aprovação da engenheira pode ter peso pela popularidade que ainda sustenta em seu país natal. Impedida de concorrer nas eleições de 2024, María Corina apoiou o diplomata Edmundo González —que, de acordo com atas eleitorais coletadas pelos venezuelanos e verificadas por organismos internacionais, provavelmente ganhou o pleito. Para Colette Capriles, cientista política da Universidade Simón Bolívar, a mesa será menos uma negociação e mais uma distribuição de tarefas para que ocorra uma eleição de acordo com os planos de Marco Rubio, secretário de Estado americano e um dos principais arquitetos do ataque à Venezuela há sete meses. "Não vejo estrutura adequada para uma negociação política real. Aparentemente, é para uma negociação eleitoral", afirma a pesquisadora, que participou das conversas de 2017 na República Dominicana. "Isso não significa nada, porque o problema na Venezuela não será resolvido com um novo governo", continua, referindo-se às estruturas consolidadas do regime. A tutela ficou clara na forma como a negociação foi anunciada. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo No dia 11 de julho, Jorge Rodríguez afirmou que os venezuelanos não tinham "capacidade mental" para pensar em acordos naquele momento devido ao terremoto do final de junho. "É desrespeitoso, grosseiro, é insultuoso que políticos se reúnam para decidir quem vai para o Conselho Nacional Eleitoral ou quem vai para o Supremo Tribunal", disse. Apenas três dias depois, o tremor foi a mesma justificativa para saudar a negociação em um comunicado divulgado nas redes sociais do político. "O apoio internacional unânime ao nosso povo e ao governo nacional para enfrentar essa tragédia destaca que só em união poderemos avançar na reconstrução e na manutenção da paz", afirmou. Para além das declarações do político, o terremoto de fato pode influenciar nos rumos políticos da Venezuela —foi o que aconteceu na Nicarágua em 1972, quando um terremoto em Manágua acelerou a derrocada da ditadura da família Somoza no país centro-americano. "O terremoto acelera as coisas e força o governo e os EUA a abrir as portas da cooperação internacional sob as regras do jogo de organizações multilaterais, como a ONU, o Banco Mundial e a União Europeia", diz Colette.

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