Sem �gua, sem dignidade

Sem �gua, sem dignidade

Há mais de um mês, a aldeia Potrero Guassu, em Paranhos, no Mato Grosso do Sul, enfrenta a falta de acesso à água potável. Para sobreviver, os moradores precisam percorrer longas distâncias até um rio, de onde retiram água para beber, cozinhar e realizar suas necessidades básicas. Enquanto isso, crianças e idosos já apresentam problemas de saúde. A água utilizada pelas famílias pode estar contaminada. Cercado por plantações de soja e áreas de criação de gado, o território enfrenta riscos associados ao uso de agrotóxicos e à presença de animais nos cursos d’água. Embora ainda não haja comprovação laboratorial da contaminação, a suspeita exige investigação imediata. Afinal, quantas crianças precisarão adoecer para que o poder público reconheça a gravidade dessa situação? As lideranças já cobraram providências e denunciaram a situação ao Ministério Público, ao Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) e à Prefeitura de Paranhos. No entanto, até agora não receberam qualquer resposta ou devolutiva desses órgãos. A comunidade já denunciou, pediu ajuda e alertou sobre os riscos à saúde. Mas continua sem água e sem respostas. Como justificar que uma situação tão grave, já comunicada às autoridades competentes, permaneça sem solução? E essa não é uma crise nova. Em 2008, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) já denunciava a falta de água e o adoecimento de crianças em Potrero Guassu. Em 2024, documentos do DSEI apontavam que aproximadamente 61% das moradias não eram atendidas adequadamente pela rede de abastecimento. Em junho de 2026, a Prefeitura de Paranhos anunciou a inauguração da ampliação do sistema de abastecimento, com investimentos de aproximadamente R$ 1,7 milhão. Como explicar que, poucos meses depois, a comunidade esteja novamente sem água? Onde estão os resultados desse investimento? A Constituição assegura os direitos fundamentais à saúde, ao meio ambiente equilibrado e à proteção dos direitos territoriais indígenas. Não estamos falando de favor ou caridade, mas de uma obrigação do Estado. É urgente que a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), o DSEI-MS, a Prefeitura de Paranhos e os demais órgãos competentes garantam imediatamente o fornecimento de água potável, investiguem possíveis contaminações, prestem assistência médica às famílias e reestabeleçam o abastecimento regular. O MP, o DSEI-MS e a Prefeitura de Paranhos precisam responder publicamente às denúncias, esclarecer quais medidas foram adotadas e apresentar prazos concretos para solucionar o problema. Não podemos aceitar que, em pleno século 21, povos indígenas continuem sendo obrigados a escolher entre a sede e o risco de consumir água imprópria. Tampouco podemos naturalizar que uma comunidade denuncie repetidamente a violação de seus direitos e encontre apenas o silêncio das instituições. Água é vida. Água é saúde. Água é território. E deixar uma comunidade indígena sem acesso à água potável é uma violação de direitos humanos que exige providências imediatas. Potrero Guassu não precisa de mais promessas, nem de mais silêncio institucional. Precisa de água, de respostas e de respeito. Antes que essa negligência custe vidas. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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