Sem grilos

Sem grilos

Meu êxtase bucólico durou exatamente cinco minutos, 180 cri-cris e um muxoxo de criança. Anos atrás atravessei a cidade a 20 km/h, o carro arriado por 250 kg de terra e cem mudas de plantas compradas no Uemura Flores, cruzando os dedos para que um pneu não furasse e eu tivesse que instalar um jardim botânico na calçada antes de conseguir acessar o step. Graças ao meu esmero na pilotagem e aos avanços na tecnologia radial-pneumática, passei o fim de semana trabalhando a terra e no domingo, antes do almoço, o jardim botânico estava instalado não numa calçada qualquer, mas neste sétimo andar da rua Maranhão. De todas as alegrias que a incursão botânica me trouxe, a jardineira da sala talvez seja a maior. Abro a porta de casa e já dou com a parede verde do jasmim emaranhado na tela de proteção. (Em algumas noites de verão, o cheiro das flores me recebe no hall do elevador.) Me pareceu natural, portanto, apenas a coroação de todo este movimento árcade, a premiação pela busca do meu "locus amoenus" sem "fugere urbem"– se não me falha a memória do Anglo Vestibulares– que anteontem, lá pelo fim da tarde, eu e meus filhos tivéssemos nossas séries e leituras interrompidas por um tonitruante cri-cri. Meu primeiro reflexo foi achar que era um alarme. O áudio de um dos tablets. Sem tirar os olhos do livro, resmunguei "alguém desliga isso, por favor, ou bota fone", ao que Oli ou Dani responderam, sem dar muita bola, também absortos em seus mundinhos, "não dá. É um grilo". E era. No primeiro dos já mencionados cinco minutos de êxtase bucólico ficamos saboreando a estridulação –aqui não é Anglo, é Google–, a janela e as bocas escancaradas. Que coisa mais bonita, pensei, já não tenho mais uma jardineira e sim um ecossistema. A presença do grilo dava ao meu modesto canteiro o selo ISO-14001, cada cri-cri era um carimbinho de "verified" emitido para toda a vizinhança pela pan-plataforma Pachamama. Parafraseando Rubem Braga, meu grilo era alguma coisa de vivo que se afirmava com ímpeto e certeza. Um belo gesto da terra. E eu não era mais um medíocre homem que vivia atrás de uma chata máquina de escrever, mas um rico lavrador da rua Maranhão. Rubem Braga foi o minuto cinco da minha agroglória. Então, no segundo seguinte, Daniel verbalizou o que nós três começávamos, secretamente, a pensar: "esse grilo não vai parar nunca?". Não. E a constatação disparou o desespero, que se espraiou por nosso jardim suspenso feito napalm. Impossível o Daniel assistir "Todo mundo odeia o Chris" com aquele cri-cri. Olivia mal conseguia se concentrar na Ariana Grande. Tente ler Grande sertão: veredas (ou mesmo a bula do Dorflex) com essa sirene entomológica instalada na sua janela. Minha filha, num rompante de otimismo, soltou "não tem uma história que grilo vive só um ou dois dias?". Corremos para a IA cheios de esperança e sadismo, mas não. O martírio, isso é, o grilo, poderia durar até um ano. Exilados num Íbis, debatemos as possibilidades. Baygon, concordamos, seria intolerável –caso viesse a público. Quem sabe, então, um método mais orgânico? Uma lagartixa daria conta do recado? É possível comprar uma lagartixa? Na dark web, talvez? Iguanas, sim, são legalmente vendidas. Mas e se a iguana despenca do sétimo andar, gente? Seria mais grave que o Baygon. Não sei como pôr um ponto final nesse tormento, mas sei ao menos como pôr fim a essa crônica. Trago emprestada a reação assustada do escritor e pintor Max Jacob, ao ser convidado por amigos para um passeio ao campo: "O campo? Esse lugar onde os frangos passeiam crus?" Bem, os frangos ao menos passeiam, né, Max? LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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