A decisão de adaptar "Cem Anos de Solidão" foi uma das ações mais ousadas da história da Netflix. Pensando no alcance do romance de Gabriel García Márquez, mais de 40 milhões de exemplares vendidos, e no seu lugar único na literatura latino-americana, fazer uma série sobre as sete gerações da família Buendía parecia uma ideia de maluco. García Márquez nunca aceitou propostas de adaptação. Temia ver seus personagens falando inglês em versões edulcoradas da magnífica e perturbadora história que criou. A Netflix convenceu Rodrigo García e Gonzalo García Barcha, filhos do escritor, com a proposta de uma adaptação em 16 episódios de uma hora cada, resultando em uma série falada inteiramente em espanhol, filmada na Colômbia, com uma maioria de atores colombianos, muitos iniciantes entre eles, e enorme reverência ao texto do livro. Os primeiros oito episódios foram lançados em dezembro de 2024. Saiu-se muito bem em matéria de crítica, mas não foi o sucesso de público que merecia. A série é narrada no tempo do romance; não tem ganchos espetaculares ao fim de cada episódio, as reviravoltas não são anunciadas com pompa, o ritmo não é de uma história de ação. A fundação de Macondo, as primeiras aventuras dos Buendía e os acontecimentos salpicados de realismo mágico são descritos de forma deslumbrante. O casarão da família, onde muitas das ações se passam, evoca muitas das maravilhas escritas por García Márquez. Não cabe, naturalmente, comparação entre livro e série. A voz de García Márquez é única e inimitável. Para muitos, pode ser mais divertido e poético imaginar o que ele escreveu do que ver a tradução daquele texto em imagens. É certo que a leitura do romance, que está na 148ª edição pela Record, no Brasil, provoca um tipo de encantamento diferente, mas é nítido o esforço da produção da Netflix em seguir com a máxima fidelidade o que escreveu o prêmio Nobel colombiano. A conclusão do trabalho de adaptação chega nesta quarta-feira à plataforma de streaming. Sete novos episódios serão colocados à disposição dos assinantes e o oitavo será guardado para exibição em 26 de agosto. Achei esta segunda parte ainda mais brilhante do que a primeira. Na sua excentricidade, os personagens mais importantes são tratados sempre com carinho, mas também com humor. Um dos temas centrais do romance, o conflito político entre liberais e conservadores, e o contraste entre figuras de vida dionisíaca e religiosos tacanhos, ganha outra dimensão à luz dos dias de hoje. A chegada do trem a Macondo se faz acompanhar da ocupação da cidade por uma empresa bananeira americana, que impõe um ritmo de exploração quase escravagista ao negócio. O senhor Brown personifica a tragédia que vai se abater sobre a cidade. A luta sindical ganha corpo diante da exploração da empresa americana e vai levar a uma violência perturbadora —cerca de 3.000 mortos, numa das cenas de maior impacto da série. É um episódio inspirado em fatos reais, ocorrido em 1928, quando o Exército colombiano, num gesto de subserviência ao negócio de uma empresa estrangeira, atirou contra o povo de Ciénaga, que havia se revoltado contra a gestão que a American Fruit Company fazia da exploração do negócio da banana. "Choveu durante quatro anos, onze meses e dois dias", escreve García Márquez depois do massacre. Ainda chove, parece. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Segunda parte de 'Cem Anos de Solid�o' � ainda mais brilhante que a primeira
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