O meu fim do mundo favorito foi o de 22 de outubro de 1844. O pregador William Miller estudou atentamente o livro de Daniel, concluiu que Jesus voltaria à Terra nesse dia e que o mundo acabaria consumido por um fogo purificador. Dezenas de milhares de fiéis deixaram de cuidar das suas plantações, venderam as suas fazendas e ofereceram os seus bens, tal era a crença. Como a profecia não se concretizou, o 22 de outubro ficou conhecido como o Dia da Grande Decepção. As pessoas ficaram muito desapontadas com o fato de o mundo não ter acabado. No dia 31 de dezembro de 1999, quando muita gente também achava que o mundo ia acabar, pareceu-me que a constatação de que a vida iria afinal continuar foi recebida com alívio. Mas o fim do mundo de 22 de outubro de 1844 era tão bom que foi uma desilusão não se ter verificado. Pessoalmente, não percebo a inclinação para prever fins do mundo. Se o mundo acabar mesmo, não sobra ninguém para felicitar o profeta. Mas, se o mundo não acaba, o planeta inteiro escarnece dele. Agora, Jacob Coxon, antigo investigador da Anthropic e da OpenAI, diz que a inteligência artificial pode matar-nos a todos até ao fim da década. Não digo que não, mas ficaria muito surpreendido se, num mundo em que os Estados Unidos são governados por Donald Trump e a Rússia é governada por Vladimir Putin, a maior ameaça para a humanidade viesse do ChatGPT. Seja como for, tenho agora uma motivação extra para estar vivo em 2030. Quero escarnecer de Jacob Coxon. Claro, contemplar o nascer do sol é agradável, estar com a família e amigos é ótimo —a maior parte das vezes—, mas o que me faz viver é sobretudo a hipótese de ver a cara de Jacob Coxon daqui a quatro anos. O fato de nenhuma previsão da extinção da humanidade se ter concretizado até hoje não significa, obviamente, que esse fim não possa chegar. É só que todas as previsões do fim do mundo são iguais. Normalmente, os profetas atribuem a autoria do fim a Deus —seja ao Deus tradicional ou ao novo deus da tecnologia, como agora. Mas devo dizer que sou um apreciador destas previsões. Acho que se vive melhor com a consciência de que tudo acaba. Pomos as coisas em perspectiva, a comida sabe melhor, aproveitamos mais a vida. E, de acordo com a minha experiência, a moral sexual dá uma boa relaxada. Viva o fim do mundo. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Se o mundo n�o acaba, o planeta inteiro escarnece do profeta
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