Passando esta semana por Bancoc, tentei reproduzir uma experiência que tive na primeira vez que lá fui, nos idos de 2003. É uma coisa tola, mas você que também ama viajar sabe que as memórias que trazemos do mundo são feitas de coisas assim. Tolas. Era para ser apenas uma escala a caminho do destino final daquelas férias, o Vietnã. Após um longo voo, tomei uma ducha rápida e saí para andar em Sala Daeng, a região da capital tailandesa que me hospedou naquela estreia. Eu já tinha passado por Londres e, como de costume, corri na extinta Tower Records de Piccadilly Circus. Foi lá que ouvi uma música que acabou sendo o tema desse episódio. Escutei o DJ da loja tocar algo sublime e quando vi já estava com o CD que ele tinha me apresentado na mochila: "Studio One: Women". Assim, chegando em Bancoc, saí pelas ruas ouvindo "King Street", das Soulettes, no meu CD Player (na dúvida, dê um google). A faixa soava como o acompanhamento perfeito daquele instante, um tanto contraditório. Diante do caos urbano que meus olhos testemunhavam —trânsito impossível, transporte público suspenso, centenas de pessoas se esbarrando, calor e umidade, cheiros, muitos cheiros— a doçura da voz daquelas jamaicanas cantando um ska dos anos 1960 me transportou a um outro plano, de plenitude. Mesmo depois de ter passado pela cidade tantas vezes (esta foi a décima-oitava) eu nunca tinha pensado em repetir essa sensação. Até agora. O resultado? A expressão de prazer no meu rosto dizia tudo. Eu estava muito feliz de estar de volta a Bancoc e comecei a lembrar de todos os lugares que visitei este ano. Ao fazer mentalmente a lista, no entanto, tive uma surpresa. Dei-me conta de que, só em 2026, eu havia passado pelas cinco cidades que eu sempre digo que são minhas favoritas no mundo. É uma resposta automática que dou quando me perguntam qual o lugar que eu mais gostei de visitar. E é também uma verdade pessoal. A cada cinco anos, desde 2003, levo um grupo de amigos para cada um desses destinos para comemorar meus aniversários de 40, 45, 50, 55 e 60 anos. Respectivamente: Buenos Aires, Lisboa, Istambul, Bancoc e Paris. A última dessas viagens, claro, foi em abril de 2023. Fui para outros cantos este ano: Nova York, Londres, Roma, Galícia, fora o lugar que agora ameaça desbancar a capital portuguesa deste ranking, Madri. Mas minhas cinco favoritas no mesmo ano? Quem diria… Já que mencionei meu aniversário, tenho que dizer que nunca, nesses anos todos, poderia imaginar viver essas viagens tão intensamente. E ainda, me sentir como se estivesse passando por cada um desses lugares com o mesmo frisson da primeira vez. Talvez fosse isso que eu estivesse celebrando ao ouvir de novo "King Street" em Bancoc, 23 anos depois da minha primeira passagem por lá: o fato de me sentir em casa em cada uma dessas cidades. Ando por suas calçadas como na letra que cantavam as meninas em 1966, entre elas, uma certa Alpharita Anderson, futura Rita Marley… "Descendo na direção da rua mais movimentada da cidade… Não precisa nem de reserva… A noite é só pra relaxar…". Acho que isso é o mais perto que consigo chegar de me sentir como o dono do mundo. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Se n�o dono do mundo, ao menos de cinco cidades
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