'Sarav� Shalom' aproxima a identidade judaica de outros caminhos da vida espiritual

'Sarav� Shalom' aproxima a identidade judaica de outros caminhos da vida espiritual

O que define quem é judeu? A religião, a origem familiar, os costumes ou o reconhecimento de uma comunidade? Em "Saravá Shalom", documentário dirigido pelo cineasta e antropólogo visual Alex Minkin, essas fronteiras são postas em xeque a partir de histórias de brasileiros que encontram na umbanda, no candomblé, na Jurema Sagrada e no espiritismo kardecista caminhos para se reconectar à ancestralidade judaica. O filme será exibido no Museu da Imagem e do Som de São Paulo, o MIS, nesta sexta-feira (5), às 19h. Após a exibição, haverá um bate-papo com o diretor e com a presença de Andrea Kogan, autora do livro "Espiritismo Judaico", Danit Pondé, doutora em filosofia da psicanálise e escritora de "Cinema no Divã", e Anelise Fróes, antropóloga especialista em antissemitismo e racismo e uma das autoras de "Decodificando o Antissemitismo". O longa tem como um de seus personagens centrais André Feitosa, artista, filósofo e advogado cearense que descobriu ter entre seus antepassados africanos escravizados, indígenas e judeus sefarditas convertidos à força ao cristianismo durante a Inquisição portuguesa. Ao investigar a própria genealogia, ele percorre arquivos históricos, terreiros e localidades no sertão do Ceará para recuperar uma memória familiar interrompida há séculos. O documentário também acompanha Yvonne, mulher judia de origem alemã que frequenta há mais de cinco décadas um centro kardecista fundado por famílias sefarditas no Rio de Janeiro. Depois da morte do filho, ela encontrou no espiritismo uma forma de manter o vínculo com ele. Segundo seu relato, recebeu cartas psicografadas de espíritos de rabinos e do próprio filho, que continuaria a orientá-la em sua vida espiritual. Para Minkin, as histórias revelam formas de pertencimento pouco conhecidas e frequentemente mantidas em silêncio. "O judaísmo nunca foi uma tradição completamente uniforme. Existem diferentes maneiras de ser judeu, diferentes línguas, histórias, práticas religiosas e experiências culturais. E o Brasil acrescenta a essa diversidade experiências muito particulares", diz. Nascido em Moscou, na antiga União Soviética, o diretor cresceu nas décadas de 1970 e 1980 em meio ao antissemitismo e à repressão à vida religiosa judaica. Mais tarde, estudou no Jewish Theological Seminary e na Yeshiva University, nos Estados Unidos, e passou a investigar as manifestações da cultura judaica em diferentes países. Seu primeiro contato com as religiões afro-brasileiras ocorreu há quase 20 anos, quando um amigo o levou a um terreiro de umbanda nos arredores do Rio de Janeiro. Impressionado com a música, os tambores e os rituais, começou a estudar português, frequentar cerimônias e conversar com praticantes. Na pesquisa, descobriu que judeus brasileiros também frequentavam terreiros, embora o assunto fosse pouco discutido nas comunidades judaicas. A aproximação com a história de descendentes de cristãos-novos —como eram chamados os judeus convertidos à força ao cristianismo na península Ibérica— trouxe uma dimensão pessoal à investigação. Minkin identificou semelhanças entre a experiência dessas famílias e a de judeus soviéticos que perderam o contato com suas tradições ao longo das gerações. "São histórias diferentes, claro. A repressão soviética e a Inquisição portuguesa aconteceram em contextos históricos completamente distintos. Mas existe algo que as aproxima, que é a interrupção forçada da memória religiosa e cultural", diz. O cineasta afirma que o documentário também procura questionar os limites impostos pelas instituições religiosas à identidade judaica. Para ele, o reconhecimento formal de uma comunidade não deve ser confundido com a experiência histórica, cultural e espiritual de pertencimento. "Isso não significa negar a importância das instituições judaicas. Mas significa reconhecer que elas não têm o monopólio sobre todas as maneiras de viver a memória judaica", afirma. A proposta ganha dimensão política em um momento de intolerância religiosa e de disputas em torno da identidade judaica. Minkin critica tanto a associação automática dos judeus a uma identidade branca e ocidental quanto a confusão entre o judaísmo e as posições políticas do governo de Israel. Para ele, a diversidade das experiências judaicas precisa ser considerada nos debates sobre antissemitismo, sionismo e Oriente Médio. "Uma pessoa pode ter várias identidades ao mesmo tempo, culturais, religiosas, étnicas, e isso não tem necessariamente nenhuma relação com sua opinião sobre Binyamin Netanyahu ou sobre o governo de Israel", afirma. "Antes de tentar definir o que os judeus representam politicamente, precisamos conhecer melhor quem são os judeus, em toda a diversidade de suas histórias —de ortodoxos a culturais, de seculares a macumbeiros". O diretor ainda diz não querer romantizar o sincretismo brasileiro. O Brasil, diz, tem uma longa história de racismo religioso, de violência contra terreiros e de desigualdade entre tradições. E o diálogo não apaga essas relações de poder. "Mas em vez de disputar quem sofreu mais, essas histórias de perseguição se encontram num gesto de reconhecimento mútuo", afirma. Minkin define "Saravá Shalom" como uma carta de amor judaica à umbanda, ao candomblé, ao kardecismo e às espiritualidades judaicas brasileiras. O filme procura abrir espaço para experiências que ficaram à margem dos registros oficiais. "A primeira coisa que espero é que as pessoas saiam do cinema com mais perguntas do que respostas."

Original Source

Read the full article at Www1 →

KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.