O diplomata pernambucano Manoel de Oliveira Lima foi um grande colecionador. Principalmente de livros e polêmicas. Em 1920, ele doou milhares de objetos relacionados à história do Brasil para a Universidade Católica da América, em Washington. A decisão desperta debates até hoje. A Biblioteca Oliveira Lima abriga mais de 60 mil itens do século 16 ao 20. Entre os mais pessoais, encontrei cartas, diários e fotografias de Flora, mulher do diplomata. Filha de senhor de engenho, Flora inverteu o olhar colonial dos fotógrafos europeus da época. Ela era uma brasileira rica e voltou sua câmera para a gente mais humilde da Europa, como camponeses e pescadores. Flora também fotografou a elite pernambucana no fim do século 19 e início do 20. Chama a atenção, por exemplo, um passeio pelos Alpes em 1895 com a irmã de Oliveira Lima, Maria Benedicta, e seu marido, o diplomata Pedro de Araújo Beltrão. Essas fotografias de Flora parecem tão distantes em tempo e cifrões que foi difícil para mim criar conexão. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Até que vi as fotos dos palanquins da época em que ela e o marido moraram na Ásia, entre 1901 e 1903. Observei os rostos tensos, as sandálias de corda, as roupas simples e o peso nos ombros. Saí da biblioteca e chamei um carro pelo celular. No caminho, o motorista reclamou que o trabalho por aplicativo tem rendido cada vez menos. Fiquei calada. Só pensava nas sandálias de corda.
Sand�lias de corda
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