Sal atrai pela fama de Foga�a, mas decepciona com pratos descuidados

Sal atrai pela fama de Foga�a, mas decepciona com pratos descuidados

Crítica | SP Sal Gastronomia R. Bela Cintra, 1.958, Jardins, região oeste. @salgastronomia Duas estrelas (regular) Saí da última visita ao Sal Gastronomia pensando em como o chef Henrique Fogaça reagiria se algum participante do MasterChef oferecesse aos jurados o steak tartare (R$ 125) que comi no restaurante dele. A carne parecia ter saído de uma latinha de comida de gato. O aspecto era de algo moído e depois prensado, não picado na ponta da faca. Em cima, um ovo de codorna frio, pálido e sem gosto. Ao lado, uma porção de batatas rústicas que deve ter sido feita por alguém que odeia batatas. Com tamanhos e formatos diferentes, elas se alternavam em pedaços fritos demais e fritos de menos. Desleixado e sem sal (sem trocadilhos), foi o pior steak tartare que já comi. Steak tartare do Sal Gastronomia - Priscila Pastre/Folhapress A clientela do Sal Gastronomia dos Jardins é composta por um público diferente dos restaurantes nessa faixa de preço. Há, majoritariamente, jovens que parecem vivenciar seus primeiros jantares especiais. É uma graça observar como se arrumam para estar ali, como se esforçam para transmitir naturalidade no trato com os garçons. Sem saber o que fazer com a carta de vinhos, muitos deles preferem refrigerante. Não dá para dizer com certeza, mas é possível especular que muitos estão ali atraídos pela fama do chef na TV. Para qualquer cozinheiro, ter a chance de iniciar paladares com poucas referências gastronômicas deveria figurar como um privilégio. Infelizmente o Sal escorrega nos preparos e deixa a oportunidade de uma iniciação memorável escapar. A entrada de ceviche de caju (R$ 46) amarrava a boca de tão doce e adstringente. Pequenos pedaços da fruta (sem suculência e pouco fibrosa) boiavam no suco dela mesma. A cebola roxa, o coentro, a pimenta-biquinho e o salsão se perdiam na confusão. Um dos principais que provei foi o stinco de cordeiro com nhoque (R$ 176). Numa boa apresentação, a perna de cordeiro veio carnuda e tenra, num gostoso demi-glace. Já o nhoque em manteiga de sálvia estava molenga, cozido demais. Na visita anterior ele estava melhor. Pedido em outra versão, (nhoque ao sugo, no menu kids; R$ 65) pecava no tamanho. Contei 17 unidades. Sem nenhum acompanhamento, não foi suficiente para satisfazer a criança. Nessa ocasião, eu fui de risoto de shimeji (R$ 102). Ele veio bem servido e, apesar do arroz mais duro que al dente, o risoto espalhava-se cremosamente no prato (como deve ser). O shimeji, que deveria estar firme e macio, estava borrachudo. Para finalizar, a castanha-do-pará seria bem-vinda se estivesse em lâminas finas. Mas, fatiadas de forma grosseira, deixaram um final gorduroso e sabor marcado. De sobremesa, provei primeiro o pudim de cumaru com sementes de papoula (R$ 46). Esperava um pudim convencional, mas era uma panacota. Estava fresca, com um toque discreto da especiaria amazônica, e cercada por uma boa calda de frutas vermelhas. Depois, veio a torta quebrada de maçã-verde (R$ 53). A massa era desagradavelmente esfarelenta. Com a maçã do recheio cozida além da conta e a base de creme inglês, o resultado foi um doce sem estrutura ou crocância, que logo virou uma papa no prato. O café que pedi para acompanhá-lo nunca chegou. Lembrei do programa de TV. Das broncas que os jurados dão, na frente de milhões de pessoas, nos participantes que apresentam um prato ruim. E, talvez contagiada pela faixa etária do jantar, lembrei de uma frase dos quadrinhos. Um ensinamento que os jovens clientes que economizam dinheiro para ir ao restaurante do chef famoso ficariam felizes se a casa adotasse. Como diria o sábio tio do Homem-Aranha, "com grandes poderes vêm grandes responsabilidades".

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