A USP (Universidade de São Paulo) lidera entre as universidades brasileiras em número de trabalhos científicos citados em documentos de políticas públicas. Entre 2020 e 2024, foram citados nesses documentos 4.452 dos 79.646 trabalhos científicos da universidade, 5,6% da produção no período, segundo dados que passam a integrar nesta edição o indicador de pesquisa do RUF (Ranking Universitário Folha). A relação entre a produção científica e seus efeitos fora do ambiente acadêmico tem ganhado espaço na avaliação da ciência e da pós-graduação no país. O Plano Nacional de Pós-Graduação 2025–2029, da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), prevê maior aproximação entre a academia e outros setores da sociedade e inclui o impacto social da pesquisa entre os aspectos considerados na avaliação. O novo componente do RUF, que vale 2% da nota geral do ranking, leva em conta o número de trabalhos científicos de cada universidade citados em documentos de políticas públicas. Os dados são fornecidos pela Elsevier, que, por meio do SciVal, relaciona as publicações científicas das universidades a documentos indexados na Overton, base internacional que reúne documentos de governos, organizações não governamentais e organizações internacionais. As citações em documentos de políticas públicas são utilizadas na avaliação da pesquisa como um dos indicadores associados ao impacto social da produção científica e permitem observar a presença da pesquisa produzida nas universidades em documentos de governos e outras organizações. Para Rogério Mugnaini, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), o novo componente amplia a forma de observar a circulação da produção científica para além das citações acadêmicas. "As citações acadêmicas mostram principalmente o impacto da pesquisa dentro da própria ciência. Já a presença em documentos de política pública pode indicar que aquele conhecimento chegou a espaços de decisão, planejamento ou formulação de políticas", afirma. Um exemplo dessa presença é o artigo "Amazonia as a carbon source linked to deforestation and climate change", publicado na revista Nature em 2021. O trabalho foi citado em 172 documentos de políticas públicas. Liderado pela pesquisadora Luciana Gatti, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), e com Carlos Nobre, da USP, entre os autores, o estudo relaciona desmatamento e mudanças climáticas às emissões de carbono na Amazônia. Entre os documentos que o citam está um relatório do Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), que inclui o estudo entre as pesquisas que embasam a afirmação de que o desmatamento está fazendo a Amazônia emitir mais carbono do que absorve. Na edição 2026 do RUF, 7 das 10 universidades com maior número de trabalhos científicos citados em documentos de políticas públicas são federais. As outras três são as estaduais paulistas USP, Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e Unesp (Universidade Estadual Paulista). A primeira instituição privada, a PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul), aparece na 28ª posição.Para Lilian Nassi-Calò, editora associada da Revista Panamericana de Salud Pública da Opas (Organização Pan-Americana da Saúde)/OMS, a presença de um trabalho em documentos de políticas públicas indica que o conhecimento científico "ultrapassou o circuito da comunicação científica e entrou, potencialmente, no processo de decisão pública". Nassi-Calò diz, porém, que a citação não permite estabelecer uma relação direta entre a pesquisa e uma decisão. "A presença de um artigo em um documento de política demonstra atenção, uso ou incorporação potencial do conhecimento, mas não necessariamente demonstra que a pesquisa causou uma determinada decisão ou produziu um efeito social." Dos quase 500 mil trabalhos científicos publicados no Brasil entre 2020 e 2024, pouco mais de 28 mil foram citados em documentos de políticas públicas, o equivalente a 5,7%. As ciências sociais têm a maior proporção de trabalhos citados nesses documentos, com 7,8% das publicações da área. Em seguida aparecem as ciências médicas, com 7,3%. Trabalhos científicos brasileiros aparecem citados em documentos de 1.713 organizações nacionais e internacionais. A OMS (Organização Mundial da Saúde) lidera a lista, com 1.691 documentos que citam pesquisas do país no período analisado pelo RUF.
RUF passa a considerar trabalhos cient�ficos citados em documentos de pol�ticas p�blicas
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