Melman nasceu medindo já dois metros de altura. Com um ano de idade, esse simpático filhote de girafa —que ganhou o mesmo nome do personagem pescoçudo da animação "Madagascar"— devora arbustos aos montes. Basta seu tratador chegar perto dele com alguns ramos de uma planta chamada malvavisco que o bicho já se assanha e, com sua língua poderosa, vai arrancando as folhas e mandando ver na comida. O animal é só um dos cerca de 2.300 que habitam o Zoológico de São Paulo. Ele convive com tipos como o casal Adão e Eva, dois rinocerontes-brancos que amam ser acariciados com um escovão na perna. E com Colônia, uma fêmea de hipopótamo em busca de um novo amor. Todo mundo torce para que ela se engrace com Ramon, um macho mais novo que veio de São Vicente, no litoral paulista. Para dar conta de tanto bicho —afinal, estamos falando do maior zoo da América Latina—, é necessário ter uma equipe enorme de tratadores, veterinários, biólogos, zootecnistas e outros profissionais. Tudo precisa ser bastante organizado para que os animais se alimentem, tenham saúde e não ocorram acidentes. Por ali, a rotina começa por volta das 6h da manhã. E não importa se é dia de semana ou fim de semana. Por volta desse horário chegam caminhões cheios de ração e itens como banana, cenoura, feno e peito de frango congelado. Tudo é descarregado num enorme galpão e começa a ser separado em várias bancadas, cada uma para um tipo de animal. Os grandes felinos, como os tigres e as onças, por exemplo, comem carne vinda de frigorífico, isto é, a mesma que compramos no supermercado. Na bancada dos primatas, como os chimpanzés e os orangotangos, o pessoal vai cortando frutas que vêm da Ceagesp, o mesmo lugar que abastece as feiras dos humanos. Mas alguns dos bichos têm dietas diferentes e precisam comer presas inteiras como ratos e camundongos ou mesmo grilos e baratas. Não podemos nos esquecer, afinal, que estamos falando de criaturas selvagens. Mas onde é que o zoológico compra essas coisas se não existe barata à venda? É por isso que existe ali um lugar chamado biotério, uma espécie de laboratório onde esses roedores e insetos serão cultivados para, depois, virar comida de predadores como o jacaré-do-papo-amarelo. "A nossa proposta é que o animal tenha uma vida mais próxima da natureza", diz o zootecnista Lucas Andrade Carneiro. Uma das funções dele é supervisionar a alimentação dos bichos. E haja trabalho: todo dia, chegam ali até três toneladas de comida. Cada espécie tem as suas particularidades. Para os leões, por exemplo, às vezes é necessário esconder pedaços de carne em travesseiros de feno, que depois serão estraçalhados pelas feras. A ideia por trás disso é estimular um comportamento próximo ao que existe na savana, onde os felinos soltos caçam suas presas. Isso se chama enriquecimento ambiental. Vale dizer que não há nenhum contato direto entre os tratadores e os bichos mais perigosos. Na hora do rango, os funcionários conduzem os animais a uma parte específica dos seus viveiros, separada por grades ou portões, e entram numa outra parte da jaula para deixar a comida. Os animais só são liberados para circular quando não houver mais ninguém por ali. Só que às vezes é preciso chegar bem perto dos bichos para saber como está o peso deles, fazer um exame de sangue ou para retirar uma verruga da pele. É por isso que existe uma atividade chamada condicionamento operante: ao longo de semanas, os tratadores vão ensinando alguns macetes para os animais e dando um reforço positivo (um carinho ou um petisco) sempre que eles cumprem o que precisam fazer, como ficar perto do alambrado para receber uma vacina ou abrir a boca para tomar uma medicação. Algumas vezes, o condicionamento é insuficiente. Pense no caso de uma suçuarana que precisa passar por uma cirurgia, por exemplo, e não obedece a comandos de jeito nenhum. Aí o pessoal precisa fazer uso da sedação, que nada mais é do que a aplicação de um tranquilizante que faz a criatura dormir e permite que ela seja operada. Quando a Folhinha visitou o zoológico, no começo de agosto, os funcionários precisavam tratar de uma ferida na cauda de David, uma píton birmanesa albina. É uma cobra que pode chegar a até oito metros de comprimento, capaz de engolir um porco inteiro. Na mesa da consulta, uma pessoa segurou a sua cabeça, outra imobilizou seu corpo, enquanto a veterinária Fernanda Gondim cuidava de seu machucado. Para amparar o sapo-cururu Shrek, que tinha um pequeno ferimento perto da boca, foi fácil, pelo menos: bastou só que alguém pegasse o anfíbio nas mãos. Tem também berçário ali. Encontramos a bióloga Fernanda Guida pondo o filhote de um cisne-negro, nascido havia apenas três dias, na balança e anotando o peso dele: 170 gramas. Na sala ao lado tinha outro pássaro bebê. Era uma harpia ainda minúscula, com oito dias de vida, que já se mostrava valentona e bicava o dedo de quem tocasse nela. No futuro, ela poderá chegar a ostentar mais de dois metros de envergadura, isto é, o comprimento entre as suas asas abertas. Trata-se da maior ave de rapina brasileira, habitante da amazônia. A essa altura, você já deve saber que nem todo mundo é a favor de zoológicos. Afinal, para que manter enjaulados bichos que nasceram para ficar livres? Na natureza, seres como lobos, leopardos e ursos caminham dezenas de quilômetros por dia, caçam e vivem em grandes grupos. Dentro de recintos, o espaço é muito menor e, muitas vezes, eles ficam sozinhos a vida toda. Isso sem contar que o barulho dos visitantes pode causar estresse e depressão neles. Também há muita gente que torce o nariz para que muitos animais de zoológico são tratados como peças de diversão. Por outro lado, também há quem diga que, sem os zoológicos, não haveria como acolher um elefante resgatado de um circo e que não sabe mais viver na natureza, ou um bugio que acabou ferido e terá de viver para sempre com acompanhamento de veterinários. Isso sem falar que muitos bichos nem existiriam mais se não fossem os zoos. Quer um exemplo? Vamos falar da ararinha-azul. Ela é um dos símbolos do Brasil, tanto é que inspirou o personagem Blu, do filme de animação "Rio". De tão fascinantes que são suas penas cor de cobalto, ela foi por muitos anos capturada por pessoas que a queriam como pet, o que é ilegal. Além disso, seu habitat natural, a caatinga, foi bastante devastada pela ação do homem. O resultado é que essa ave foi tida como extinta da natureza por duas décadas até que pesquisadores puderam reintroduzir alguns exemplares a partir de outros criados em cativeiro. Hoje há cerca de 270 ararinhas-azuis no mundo todo mantidas sob cuidados humanos. O Zoológico de São Paulo conta com 27 delas, ou 10% do total, e o objetivo é cuidar para que esses exemplares se reproduzam e possam, um dia, formar mais e mais pássaros desses para repovoar a natureza. Não é algo que vai acontecer do dia para a noite, mas graças a iniciativas como as do zoo, talvez vejamos mais desses bichos na natureza. Pois é, todos esses argumentos, contra ou a favor, fazem algum sentido. Está vendo como a discussão sobre os zoológicos é muito mais complexa do que parece à primeira vista?
Rotina no Zoo de SP envolve 3 toneladas de comida e grilos criados para virar refei��o
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