Já vi essa cena muitas vezes, e em algumas delas o personagem fui eu. Um executivo sai de uma reunião na Faria Lima (SP), cruza com alguém dormindo na calçada e carrega aquilo na cabeça o resto da semana. Na sexta-feira, organiza uma doação de cobertores no escritório. O gesto é sincero e necessário. O incômodo, claro, é legítimo, mas não é essa a questão. Antonio Prata escreveu certa vez sobre um cara que frequenta botecos e biroscas em busca do Brasil autêntico e cumprimenta os atendentes com um tapinha nas costas, acreditando que ser "amigo" dos garçons vai resolver 500 anos de desigualdades históricas. "Nós gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em coqueiro e usam sandália de couro (...), mas a gente detesta os pobres que chegam depois, de Chevette e chinelo Rider". Há mais de um século e meio, a elite brasileira já olhava assim para quem estava longe dela. O romantismo inventou o bom selvagem. José Alencar deu ao país Peri e Iracema e Gonçalves Dias descreveu guerreiros de dignidade impecável. Era um indígena nobre, puro e corajoso que servia a um projeto: o segundo reinado precisava de um passado fundador que não fosse europeu e a literatura se encarregou de criar estes heróis. Enquanto os versos circulavam nos salões do Rio de Janeiro, os indígenas de carne e osso eram expulsos de suas terras e dizimados por doenças ou milícias particulares. As duas coisas aconteciam ao mesmo tempo, sem que ninguém enxergasse alguma contradição. O indianismo revela isso sem querer. Ele nunca versou sobre indígenas, mas sobre a elite imperial que fala sobre si mesma. O romantismo é mais selfie do que fotojornalismo. E falando na imprensa, um outro retrato do Brasil veio justamente de um repórter. Euclides da Cunha foi a Canudos (BA) em 1897, enviado por um jornal, com uma ideia pronta: um bando de fanáticos monarquistas ameaçava a República. Porém, se deparou com um cenário bem diferente e voltou com "Os Sertões", clássico registro de um homem culto descobrindo qual era a real das paradas. Trinta anos depois, Mário de Andrade fez algo ainda mais desconcertante. "Macunaíma" é indígena, preguiçoso, mentiroso e safado. O subtítulo do livro o define como o herói sem nenhum caráter. Pode soar como um rebaixamento, mas Mário de Andrade devolveu ao personagem o direito de ser moralmente complicado, exatamente o direito que o indianismo havia tirado dele. Trazendo isso para o presente do investimento social privado, existe, sim, organização social mal administrada, liderança que erra e gestores que fazem escolhas equivocadas. Dizer isso em voz alta costuma soar como ataque ao setor, quando, na verdade é tratá-lo com seriedade e transparência. Me chama a atenção, aliás, a crise de confiança que ronda a doação. O rigor aplicado a uma ONG de orçamento apertado raramente alcança a gestora instalada no andar de cima da mesma avenida. A desconfiança se distribui de forma curiosa. E não faltam por aí organizações sociais com governança melhor do que a de muita empresa. A doação bem-intencionada e distante tem um limite conhecido. Ela entrega o que o doador imagina, mas não o que o território precisa. É como enviar cestas básicas para uma comunidade onde a comida não é exatamente o problema, mas sim a falta d'água. O investimento em caminhões-pipa atenderia muito mais. Não é uma questão de má fé, mas de distanciamento. Quem doa desconfiado deveria conhecer a organização por dentro antes de decidir. Quem doa comovido deveria voltar ao mesmo lugar uns seis meses depois. Quem busca transformação duradoura precisa de menos certezas e mais perguntas. As doações de cobertores ou o apoio em emergências são essenciais, mas são pontos de um espectro imenso, que inclui sertão, quebrada, ribeira, periferia, cada um com seus próprios especialistas, que moram lá e sabem muito bem quais são os desafios e também as soluções. Proximidade assim não se conquista sozinho nem numa visita só. Ela depende de se articular com quem já está nos territórios e de aceitar que a pergunta certa quase sempre vem de lá. É o que tenho visto funcionar nas coalizões de filantropia local que acompanho no Movimento Bem Maior, e o aprendizado tem sido mais nosso do que deles. Alencar inventou um índio que nunca existiu. Euclides foi ver com os próprios olhos. Mário mostrou que a complexidade moral é uma forma de respeito. Os três livros seguem em catálogo. Faríamos bem em reler os dois últimos. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Romantizar o terceiro setor � uma forma elegante de n�o lev�-lo a s�rio
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