Duas pessoas que montavam brinquedos para uma festa infantil de rua ficaram feridas no último sábado (1º) depois que um drone lançou uma bomba sobre a favela dos Dourados, em Cordovil, na zona norte do Rio, controlada pelo CV (Comando Vermelho) e disputada pelo TCP (Terceiro Comando Puro), facção rival na região. É o mais recente de uma série de pelo menos sete casos de explosões provocadas por artefatos lançados de drones no Rio desde março, entre treinamentos de criminosos e ataques contra rivais, moradores e forças de segurança. Diante do crescimento dos episódios, a Polícia Civil formalizou em 13 de julho a criação da Coant (Coordenadoria de Operações com Aeronaves Não Tripuladas), unidade que reúne pilotos próprios e concentra o trabalho de inteligência sobre o uso de drones pelo crime. A estrutura física do setor já existia desde o fim de março, quando a corporação anunciou a compra de seis modelos de drones chineses, dentro de um pacote de investimento em tecnologia que somou R$ 2,1 milhões nos últimos dois anos. "A gente sentiu necessidade de uniformizar isso. Para que nós atuássemos sob os mesmos protocolos, que nós tivéssemos a capacidade de fundir as regras que regulam o setor", afirma o delegado Marcos Motta, à frente da coordenadoria. Para o delegado, o uso da tecnologia pelo crime no Rio ainda está concentrado em monitoramento, não em ataques sistemáticos, mas há indícios de profissionalização inspirada em modelos internacionais — como o México, onde cartéis já criaram a função de "droneiro" dentro da hierarquia criminosa. "No México, acho que é o cartel Novo Jalisco [Jalisco Nova Geração], eles têm uma função específica chamada droneiro, que é o operador de drone lá. Virou uma função como se fosse o olheiro, o vapor, etc", disse o investigador. Ele cita ainda indícios, levantados em redes sociais, de que pessoas com antecedentes criminais e ligação a organizações criminosas estariam operando drones em zonas de conflito no Rio de Janeiro.Outros episódios recentes incluem uma granada que atingiu um imóvel no Complexo da Penha durante suposto treinamento, na madrugada de 31 de julho, e um ataque que danificou uma residência na comunidade da Caixa d'Água, na Penha Circular, em 1º de agosto. Em fevereiro, um homem ficou ferido na perna após um drone lançar um artefato em um bar, em São João de Meriti. Em maio, um adolescente de 15 anos sofreu fratura exposta no morro da Caixa D'Água, na Penha. Segundo investigação, a favela dos Dourados, controlada pelo CV, é alvo de ataques do TCP, ligado a Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, que domina o chamado "Complexo de Israel" (Parada de Lucas, Cidade Alta, Vigário Geral, Pica-Pau e Cinco Bocas). Já o Complexo da Penha, também do CV, tem o tráfico comandado por Edgar Alves de Andrade, o Doca ou Urso, apontado como integrante da cúpula da facção. Ambos estão foragidos e não possuem advogados. O uso de drones por facções é monitorado desde 2017, quando a Polícia Civil identificou a aquisição dos equipamentos por Peixão para monitorar rivais e agentes públicos.Em 2025, a DRE (Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Capital) investigou um integrante do CV que teria ido à guerra Rússia-Ucrânia, custeado pela facção, para aprender táticas de guerrilha e ensiná-las no Rio. Outro integrante foi flagrado pela Polícia Militar treinando com drone de cerca de três metros no Complexo do Alemão. Motta confirma que o crime já usa drones agrícolas, com capacidade de carga muito maior que a dos modelos comerciais comuns. "Ele vai de 10 a 80 kg de capacidade de carga. Ele não precisa usar para borrifar pesticida, ele pode atrelar alguma coisa ali, carregar de um ponto para outro", diz. A resposta policial passa por detecção e interceptação de sinal. "A primeira é a detecção, dentro do espectro de frequência que o drone emite", diz Motta. A segunda etapa é o bloqueio, com equipamentos que vão de dispositivos portáteis a "estações muito complexas, que vão bloquear inclusive pequenas porções de território". Segundo ele, presídios e prédios públicos já contam com bloqueio permanente de sinal. Em nota, a PM disse não ter levantamento estatístico sobre ocorrências com granadas lançadas por drones, mas reconheceu "uma evolução das táticas" do crime. A Polícia Civil afirmou monitorar o uso da tecnologia pelas facções e disse que as delegacias fazem diligências contínuas para mapear o fenômeno.
Rio registra ao menos sete ataques com drones em 2026 e amplia resposta policial
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