"A luta do povo pataxó não é mais com arco e flecha. Temos uma nova estratégia para sobreviver." A frase faz referência à importância do projeto de turismo de base comunitária para os moradores da Terra Indígena Barra Velha do Monte Pascoal, em Porto Seguro, na Bahia. Criada há 20 anos, a iniciativa se tornou uma fonte de renda alternativa para parte das famílias da aldeia Xandó, a oeste do distrito de Caraíva. Diariamente, turistas sobem o rio em direção à reserva Porto do Boi, onde o passeio com almoço incluso custa R$ 150. O dinheiro é dividido igualmente entre os indígenas que trabalham na reserva, além de custear pequenas obras na aldeia e viagens de lideranças para reuniões e negociações políticas. Na entrada, os visitantes são orientados a deixar os calçados, como parte da proposta de uma experiência mais imersiva. Eles passam pelos casebres rurais que preenchem a paisagem do interior de Caraíva e entram numa espécie de oásis, com árvores que tentam reproduzir uma floresta. No centro, fica a Oca Mãe, estrutura circular que abriga um tipo de altar, com incensos e gravuras no teto que remetem a imagens psicodélicas, misturando padrões nativos e fractais que parecem criados por inteligência artificial. É ali que acontece a maior parte da programação, que tem hora marcada. Às 10h, o grupo de turistas é recebido por pessoas que fazem pinturas corporais com técnicas tradicionais e tintas à base de argila. Cada visitante pode escolher em que parte do corpo quer receber o desenho. "Essa pintura é wekanã ug werymehê, que significa paz e amor na nossa língua nativa", diz um indígena enquanto faz uma gravura no peitoral de um turista. O patxohã, língua do povo pataxó, do tronco linguístico macro-jê, hoje não tem falantes nativos. O idioma, porém, passa por um processo de retomada, com os anfitriões recorrendo a palavras soltas e expressões isoladas, sem esclarecer aos visitantes, contudo, que ele foi extinto há muito tempo. Depois das pinturas, os visitantes têm cerca de 15 minutos para fazer registros em uma área que costuma aparecer em postagens do Instagram: os condutores oferecem adereços tradicionais, como cocares e chocalhos sagrados. Na sequência, todos são levados a sentar em esteiras de palha no chão da Oca Mãe, onde acompanham uma apresentação conduzida por uma das lideranças. Durante cerca de uma hora, um homem trajado com miçangas e rosto tingido com padrões que lembram o de uma onça-pintada fala a respeito da história, da cultura e dos costumes dos pataxós. A fala aborda temas amplos e mistura odes à paz entre as pessoas e o respeito à natureza. Em alguns momentos, ganha tom motivacional, não muito diferente do de coaches contemporâneos. "As pessoas chegam aqui com poucas informações sobre nós. O que fazemos as ajuda a saber que ainda existimos, mesmo que não seja possível aprofundar tanto na nossa realidade", diz Raoni Pataxó, que conduzia a palestra. O ponto alto da visita é um ritual. Ao som dos cantos entoados pelos indígenas, a fumaça da amescla, resina de uma planta nativa do sul da Bahia, se espalha pelo ambiente. Os visitantes são convidados a experimentar uma versão diluída do rapé, um pó geralmente preparado com tabaco moído e cinzas de raízes. Antes, o condutor do ritual fala das propriedades medicinais da substância, tida como sagrada. Ele reforça que aquilo não deve ser consumido como uma droga recreativa. "Com quem brinca com o rapé, o rapé brinca de volta", diz. O grupo é orientado a aguardar sentado em esteiras de palha. A substância é aplicada diretamente nas narinas com o auxílio de um pequeno tubo, e a reação é imediata: provoca uma ardência forte nas vias respiratórias, lacrimejamento e sensação de queda na pressão sanguínea. É um desconforto que dura poucos minutos, logo substituído por uma certa sensação de tranquilidade. O corpo balança, mas não há alucinações visuais —a brisa dura uns dois minutos. Depois, o incômodo retorna, com vontade de espirrar o pó que restou na garganta. Em alguns casos, pode provocar tontura, náusea e vômito. O almoço é servido em tigelas de cerâmica, em uma espécie de refeitório com mesas compartilhadas. No cardápio, peixe assado em folha de palmeira, farinha de mandioca e banana-da-terra. Não há talheres: os visitantes são orientados a comer com as mãos, como parte da experiência oferecida pelo passeio, embora esse hábito também não faça mais parte do cotidiano dos pataxós. Raoni afirma que comer com as mãos é um hábito ancestral abandonado gradualmente com a convivência com não indígenas. "Hoje comemos com garfo e faca, embora eu tenha visto meus avós com esse hábito. Nosso objetivo é mostrar aos visitantes como era antigamente", diz. A experiência termina com um banho de ervas para limpeza espiritual. Folhas de amescla são fervidas em grandes caldeirões, e a mistura é despejada ainda morna sobre os visitantes.
Reserva ind�gena em Cara�va oferece vislumbre da cultura tradicional patax�
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