O protagonismo do deputado federal André Janones (Rede-MG) na mobilização digital que reelegeu o presidente Lula (PT) o transformou em ídolo da esquerda internacional nas redes sociais. O engajamento de pessoas de verdade explica a repercussão do "método de Janones" mundo afora, diz Issaaf Karhawi, professora da ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo). "É preciso lembrar que a presença da direita nas redes por bastante tempo foi financiada com muito dinheiro e até bots", diz. Em 2017, por exemplo, estudo do instituto de internet da Universidade de Oxford já indicava que extrema direita alemã liderava uso de bots no X. Em 2018, a campanha do então candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PL) também se valeu de ações coordenadas com perfis falsos e robôs. A estratégia continuou após Bolsonaro conquistar a Presidência. Em 15 de março de 2020, a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) identificou que cerca de 55% das postagens no X em apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro tinham sido feitas por robôs. Issaaf explica que a reunião de mais de 10,5 milhões de integrantes em um único canal de WhatsApp possibilitou à campanha petista entregar mensagens de forma instantânea aos apoiadores, driblando a entrega pulverizada comum às mídias sociais. Desde o resultado da eleição no domingo (25), publicações de usuários de diferentes países no X (antigo Twitter) e no Instagram nomeiam o movimento como "janonismo", celebram a virada histórica do presidente brasileiro entre-turnos, e se apropriam de estratégias do canal Exército de Lula" no WhatsApp. Com novo fôlego, a esquerda de outros países tenta replicar e adaptar uma resposta coletiva e coordenada para conseguir conter a extrema direita em seus contextos eleitorais. Um perfil no X diz resume o método adptado à França em medidas como considerar a complementaridade entre ocupação nas plataformas digitais e presença na rua, o foco em dialogar com pessoas indecisas, o combate à ideia de equivalência entre espectros políticos, o bloqueio em massa de perfis da extrema direita, entre outras estratégias. Nas últimas semanas, a população do país europeu articula manifestações contra o aumento do custo de vida, cortes nos serviços públicos e más condições nas escolas. A esquerda francesa conta com o canal de WhatsApp "L’équipe de Mélenchon officielle", que reúne mais de 145 mil apoiadores de Jean-Luc Mélenchon, líder do partido LFI (A França Insubmissa). Para o cientista político Luiz Augusto Campos do IESP-UERJ (Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro), essa celebração de Janones tem a ver com o fato de o deputado ter "jogado no campo ‘do inimigo’". A estratégia digital de Janones na campanha de Lula em 2022, quando o presidente derrotou o ex-mandatário Jair Bolsonaro (PL), já havia projetado o "Janonismo Cultural". Mas a esquerda demorou a compreender e adotar o uso das redes, de acordo com a professora Issaaf Karhawi, pela dificuldade de entender que as plataformas digitais têm lógica própria. Entre os turnos da eleição de 2026, a percepção de que o espaço digital é válido para fazer política mudou seu manejo. A comunicação orquestrada articulou pontos relevantes na lógica da operação das plataformas, produzindo conteúdo digital com recorrência e volume. Luiz Augusto Campos diz que a "fetichização da mobilização nas ruas" retardou a ocupação das redes. "Não faz mais sentido distinguir entre rua e redes no mundo contemporâneo. Vimos as ruas ocupadas agora justamente pela atuação de apoiadores nas redes", avalia. A atuação de lideranças jovens da esquerda que já têm forte presença digital também é apontada como fundamental pelos especialistas. Nomes como Erika Hilton (PSOL-SP), Ana Elisa (PT-MG) e Jones Manoel (PSOL-PE) alavancaram o movimento. Outras publicações de perfis de diferentes países sobre a eleição brasileira também celebram a vitória de Lula como símbolo contra a extrema direita no mundo. Comentários assinados por tailandeses, indianos, argentinos, entre outros, dizem que reeleição do petista deu esperança às democracias de seus países. Desde meados de 2010, o movimento de ultradireita ascende ao redor do mundo. "Acabei de entrar no canal do exército do Mélenchon (França) e do Pedro Sánchez (Espanha). Vamos lutar contra o fascismo, primos franceses e espanhóis" e "Recua, fascista", publicam alguns perfis. Apesar do tom sério predominar, memes se disseminam, com reproduções e dublagens de falas de políticos da esquerda ou a tradução de uma frase que marcou a campanha brasileira para outro idioma: "E você, não vai lutar contra o fascismo?" LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Repercuss�o internacional de 'janonismo' se d� por engajamento humano, diz professora Issaaf Karhawi
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