Em uma época não tão remota, a publicação de relatórios do FMI (Fundo Monetário Internacional) vinha acompanhada de grande nervosismo no debate público brasileiro. Os mercados reagiam e a mídia especializada escrutinava cada detalhe. O temor dos impactos que poderiam ser causados pelas condicionalidades exigidas pelo FMI como parte dos programas de empréstimo mobilizava os movimentos sociais. Felizmente, desde 2005, o Brasil virou uma página em sua relação com o FMI. Naquele ano, quitamos de forma antecipada nossa dívida e passamos a ser credores do fundo. Hoje em dia, em vez de condicionalidades que precisam ser cumpridas, o relatório anual do FMI traz uma avaliação externa de alto nível da economia brasileira, com a qual temos total liberdade para concordar ou discordar. O relatório anual de 2026 acaba de ser divulgado. Em primeiro lugar, ele confirma a "notável resiliência da economia brasileira". O FMI espera um crescimento de 2,4% em 2026, apesar do cenário externo desafiador. Mais importante, o crescimento potencial de médio prazo é estimado em 2,5%, substancialmente acima das estimativas de mercado. Ganharam destaque as conquistas sociais dos últimos anos, como o declínio do desemprego, da pobreza e da desigualdade, bem como a saída do Brasil do Mapa da Fome. Na área fiscal, o relatório reconhece as medidas de consolidação já em curso, publicadas no PLDO (Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias) em abril, e estima que a trajetória da dívida deverá se estabilizar no médio prazo. Ainda assim, fazendo jus à sua tradição fiscalmente conservadora, o FMI recomenda que o Brasil busque um superávit primário maior e um ajuste fiscal um pouco mais rápido. Embora a velocidade ideal da consolidação fiscal possa ser objeto de debate, o FMI sugere medidas fortemente alinhadas com as que o Brasil já vem tomando: aumentar a progressividade dos impostos, fortalecer a transparência das emendas parlamentares e eliminar gastos tributários regressivos e ineficientes. O Fundo salienta também a rigidez orçamentária brasileira, a qual terá de ser enfrentada mais cedo ou mais tarde. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. O sucesso recente no controle da inflação até a eclosão da guerra no Oriente Médio dá força à recomendação de que o Banco Central mantenha sua atual linha de política monetária. Neste ano, o FMI divulga uma avaliação à parte com uma radiografia do sistema financeiro brasileiro. Apesar de termos avançado bastante desde a última avaliação em 2018, o Fundo recomenda mais recursos para o Banco Central cumprir suas funções em um ambiente monetário cada vez mais complexo e repleto de riscos à estabilidade. Reconhece ainda que o Pix se tornou um importante catalisador da inclusão social. Não obstante, o grau de endividamento das famílias causa preocupação e requer medidas de contenção. Uma contribuição relevante do relatório para os debates de política pública no Brasil está na avaliação de políticas estruturais. Aqui, o Brasil brilha. Segundo o estudo, as reformas recentes aumentaram o potencial de crescimento do país, com destaque para a reforma tributária do consumo, que, no relatório mais recente sobre a Argentina, foi até recomendada ao país de Javier Milei. Ademais, o Brasil diversificou seus parceiros comerciais, aumentando a integração com o resto do mundo. O Plano de Transformação Ecológica e o Nova Indústria Brasil são mencionados de forma positiva. Se combinados a outras reformas, esses programas podem ajudar a impulsionar o necessário aumento da nossa produtividade. Na comparação internacional, o Brasil aparece bem na foto. Na diretoria executiva do FMI, tenho a oportunidade de acompanhar de perto a discussão de relatórios semelhantes para todos os países do mundo. Esta perspectiva privilegiada me dá a convicção de que o Brasil caminha na direção certa. Apesar de especificidades históricas e sociológicas, que se revelam em um custo de capital especialmente elevado e uma grande dívida social com as camadas mais pobres da sociedade, na atual conjuntura compartilhamos muitos dos desafios macroeconômicos com economias de porte similar ao nosso, como a França, o Reino Unido e a Itália. Assim como em outros países, a pandemia de Covid-19 elevou estruturalmente a dívida como proporção do PIB (Produto Interno Bruto), enquanto os ganhos de produtividade têm sido reduzidos. Ao contrário de outros países, no entanto, estamos conseguindo lidar com esses desafios em um contexto de crescimento continuado e inclusão social. Em 2026, os relatórios do FMI já não assustam mais o Brasil. Estamos lado a lado com os grandes credores do Fundo. Concordando ou discordando da avaliação do FMI, é inegável que o Brasil subiu de patamar. Aos que ainda teimam em olhar o copo meio vazio, só resta se contentar em ser mais pessimistas que o FMI. *As opiniões expressas no artigo são as do autor e não necessariamente representam a visão da gestão, da equipe ou do conselho do FMI
Relat�rio do FMI mostra que Brasil subiu de patamar
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