Depois de quase dois anos longe da escola por causa da guerra em Gaza, irmãs palestinas que vivem há oito meses no Brasil conquistaram medalhas na Olimpíada de Matemática das Escolas Estaduais de São Paulo, a Omasp. Tala, 14, e Dana Awad, 15, ganharam respectivamente ouro e prata. Hoje, Tala está no 9º ano do ensino fundamental e Dana, no 1º ano do ensino médio na Escola Estadual Tarcísio Álvares Lobo, na região da Freguesia do Ó, zona norte paulistana. Segundo elas, antes da guerra, já eram alunas de destaque. "Sempre estudamos com muita dedicação, por várias horas seguidas. Nos esforçávamos muito e buscávamos aprender a língua para alcançar os melhores resultados", contam à Folha, em entrevista por vídeo. As duas responderam às perguntas em conjunto, com auxílio de tradução. Apesar do histórico, a família afirma ter se surpreendido com o resultado. As irmãs dizem que a prova não foi muito difícil depois de se prepararem com livros, cadernos, apoio de professores e uso de tradutor. Desde o início da guerra, em outubro de 2023, escolas na Faixa de Gaza deixaram de funcionar após bombardeios de Israel. "Não há mais escola funcionando lá", contam. A família passou os primeiros seis meses do conflito sob ataques e deslocamentos constantes, até conseguir sair do território rumo ao Egito. "Perdemos grande parte da nossa família, tanto do lado do pai quanto do lado da mãe", afirmam. Sem autorização de residência, as irmãs não puderam se matricular em escolas egípcias. A alternativa foi o ensino online oferecido por Ramallah, cidade da Cisjordânia, mas, segundo elas, com estrutura insuficiente. Ao todo, foram cerca de dois anos sem estudo presencial. Elas citam o amor pelos estudos e a vontade de continuar aprendendo como um dos fatores que as ajudaram a atravessar esse período. "A educação é a chave para o futuro." Para a família, a vida no Brasil tem sido melhor do que imaginavam. Na nova escola, dizem ter encontrado segurança e apoio para estudar e buscar bons resultados. "Gostaríamos de expressar nossa gratidão ao país por nos dar uma nova oportunidade de recomeçar depois de todas as dificuldades que enfrentamos." Em fase de adaptação, apontam a língua portuguesa como principal dificuldade. Segundo elas, ainda se sentem "mais ou menos" confiantes no idioma. Mesmo assim, decidiram dar a entrevista sem o auxílio de um tradutor. Questionadas sobre o que mais gostam no país, citam a arte, os lugares e a comida. Antes de chegar, não tinham conhecidos no Brasil. A escolha definitiva pelo país ocorreu após o nascimento de um irmão em território brasileiro. "Procurávamos um lugar que nos oferecesse segurança e direitos que não tínhamos por causa da situação no nosso país", dizem. Já instaladas no país, as irmãs tiveram de se adaptar a uma rotina escolar diferente da que viviam em Gaza. Entre as matérias favoritas, Tala cita matemática, ciências e geografia; Dana prefere língua portuguesa. A Omasp é dividida em fases. Na segunda etapa, em que as irmãs foram premiadas, os estudantes fazem a prova na própria escola, com conteúdos específicos para cada série. Ao final, são premiados os 5% melhores alunos por município ou região. Com a medalha de ouro, Tala se classificou para a terceira fase da Omasp, prevista para 6 de agosto, etapa que pode levá-la à OBM (Olimpíada Brasileira de Matemática). "É uma sensação indescritível. Sinto orgulho de mim mesma por ter conseguido superar, mesmo que em parte, as dificuldades com a língua. Para mim, isso já é uma vitória", afirma Tala. A repercussão nas redes sociais, com direito a mensagens de apoio e reconhecimento de desconhecidos, pegou a família completamente de surpresa. Segundo as irmãs, não esperavam receber tanta atenção, e isso deu a elas ainda mais motivação para continuar se esforçando e aprendendo. Elas esperam que a história sirva de exemplo para outros estudantes. Para a mãe, Ahlam, é uma alegria e um orgulho imensos ver as filhas se adaptando, aprendendo uma nova língua e conquistando as medalhas, depois de tudo o que a família viveu. Segundo ela, isso representa uma grande vitória para todos. "Sou muito grata à escola e aos professores pelo acolhimento, pelo apoio e por acreditarem nelas", diz. No Brasil, medalhas em olimpíadas do conhecimento podem ajudar no ingresso em universidades. Após as experiências vividas, as irmãs dizem que pretendem cursar medicina. "Depois de tudo o que passamos, entendemos ainda mais a importância dos médicos. Queremos salvar vidas e ajudar tanto nosso país quanto o que nos acolheu."
Refugiadas da guerra, irm�s palestinas s�o ouro e prata em olimp�ada de matem�tica de SP
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