A investigação de autoridades sobre o suicídio da jovem de 13 anos durante uma transmissão no Discord identificou uma rede que se articulava para atrair vítimas, incentivar práticas de automutilação e, posteriormente, divulgar os conteúdos produzidos. Diferentes plataformas digitais eram usadas para convocar as vítimas para as transmissões, segundo investigadores. Eles identificaram rastros dessa atividade no Telegram, Discord, Instagram e TikTok. Segundo pessoas a par do tema, essas plataformas eram utilizadas em diferentes etapas, desde a comunicação e a organização dos envolvidos até a transmissão. Também eram usadas para o registro e a posterior circulação de conteúdos relacionados à automutilação e ao suicídio. A operação é coordenada nacionalmente pela Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente de Mato Grosso do Sul, em conjunto com o Ciberlab, do Ministério da Justiça. Houve ainda apoio das polícias civis do Rio de Janeiro, de Minas Gerais, do Pará e do Ceará. No caso da adolescente, o Telegram teria sido usado para divulgar convites e atrair participantes. A movimentação começou na noite de 21 de julho, véspera da morte, quando foi compartilhado na plataforma um link para o evento que ocorreria em um servidor do Discord. O Instagram aparece na investigação como uma das plataformas usadas para registrar parte do que aconteceu após o ato, enquanto o TikTok teria servido posteriormente para a circulação e repercussão dos conteúdos. O TikTok disse, em nota, que as contas indicadas pelas autoridades foram removidas assim que tomaram conhecimento. "Conteúdos que promovam ou incentivem suicídio e automutilação não são permitidos e são removidos quando identificados. O TikTok mantém um canal aberto e permanente de colaboração com as autoridades", disse. A Meta foi procurada nesta sexta-feira (14) por meio de sua assessoria de imprensa, via WhatsApp e por email, mas não respondeu até a publicação deste texto. A reportagem não conseguiu identificar o contato de representantes do Telegram. Sobre o caso da adolescente de 13 anos, o Discord disse nesta semana que investigou e desativou, antes da morte da adolescente, um servidor privado no qual indivíduos teriam incentivado a automutilação. A plataforma afirmou ainda que mantém equipes especializadas para identificar grupos envolvidos em atividades violentas, remover conteúdos que violem suas políticas e fornecer informações às autoridades quando apropriado. O Discord disse também que denúncias feitas de forma proativa pela empresa e respostas a solicitações das autoridades brasileiras já contribuíram para operações que resultaram em prisões. Análise chegou a outra vítima A análise dos rastros digitais também permitiu aos investigadores relacionar a morte da adolescente a um episódio envolvendo outra jovem, de 17 anos, ocorrido momentos antes. Durante uma transmissão no Discord, na madrugada de 22 de julho, integrantes dos grupos teriam incentivado a jovem de 17 anos a se automutilar e a cometer suicídio. Um dos participantes pediu que fosse feita uma captura de tela do chamado evento para posterior publicação. Para os investigadores, o pedido indica que havia a intenção não apenas de registrar as ações, mas também de ampliar posteriormente a circulação do conteúdo. Segundo a investigação, ela chegou a praticar automutilação, mas não consumou o suicídio e encerrou a transmissão. Foi durante esse episódio que, segundo a apuração, a adolescente de 13 anos apareceu no ambiente digital. Um dos integrantes do grupo teria então teria se dirigido a ela e ordenado que pegasse uma Bíblia e um gato. Pouco depois do fim dessa transmissão, um novo vídeo no Discord mostrou a adolescente de 13 anos com um gato, seguindo a orientação dada anteriormente. Para os investigadores, a sequência reforça a conexão entre os dois episódios e indica que integrantes do grupo já acionavam a adolescente enquanto as ações contra a jovem de 17 anos ainda estavam em curso. A sequência dos acontecimentos, no entanto, não se restringiu a essa transmissão. A investigação identificou posteriormente um vídeo que registraria o início do suicídio da adolescente de 13 anos no Instagram. Segundo a apuração, o conteúdo teria sido produzido em um ambiente mais restrito, com a participação de outros dois usuários apontados como lideranças dos grupos. Depois da morte, conteúdos relacionados ao caso passaram a circular também no TikTok. A suspeita é que a plataforma tenha sido utilizada para ampliar a visibilidade, promover os grupos envolvidos e dar notoriedade ao conteúdo produzido. Apesar de os participantes estarem em diferentes regiões do país, a apuração identificou uma atuação coordenada no ambiente digital. Na primeira fase da Operação Lívia, foram localizados suspeitos em cinco estados: Pará, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Ceará. Os investigados têm entre 13 e 18 anos. Ao todo, seis pessoas foram presas ou apreendidas na primeira fase da operação. Segundo os investigadores, os participantes não atuavam apenas como espectadores. As evidências reunidas até o momento apontam que alguns deles davam ordens, pressionavam as vítimas e incentivavam as práticas automutilatórias. Suspensão das transmissões ao vivo A ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados) determinou na quarta-feira (12) que o Discord suspenda as transmissões ao vivo após o caso da adolescente até que a empresa comprove a adoção de medidas efetivas para proteger crianças e adolescentes. Em nova nota encaminhada nesta sexta-feira, a agência afirmou que aguarda informações do Discord para avaliar a necessidade de novas medidas ou ações de fiscalização. Fontes do governo não informaram se Telegram, Instagram e TikTok, também identificados na investigação, poderão ser alvo de medidas semelhantes. Segundo elas, a análise não deve se limitar ao fato de determinada plataforma ter sido utilizada no episódio, mas considerar os mecanismos adotados por cada empresa para prevenir e enfrentar conteúdos violentos. Nesse aspecto, as fontes apontam uma diferença do Discord em relação às demais plataformas: a empresa não modera o conteúdo das comunicações privadas de voz e vídeo. Essa característica limitaria a capacidade de identificar situações de risco com antecedência e, consequentemente, de prevenir episódios de violência. Pessoas com conhecimento do tema ressaltam que a suspensão das transmissões ao vivo não decorre exclusivamente da morte da adolescente de 13 anos. As apurações preliminares indicam que a ferramenta teria sido utilizada de forma reiterada em episódios envolvendo incentivo à violência. No documento enviado ao Discord, a agência avaliou como insuficientes os mecanismos adotados para identificar situações de risco e destacou que os sistemas automatizados da plataforma não foram capazes de detectar adequadamente as interações relacionadas ao caso da jovem que se matou.
Rede que promovia viol�ncia no Discord usou quatro plataformas para articular a��es e divulgar conte�do
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