"Você tem de arcar com as consequências legais por cada crime que foi cometido usando sua identidade. Você entende?" A frase faz parte do roteiro de um golpe que Pedro Alencar, 25, teve de seguir após se tornar vítima de tráfico humano no Camboja. O atendente de telemarketing, que já havia sido levado pelos criminosos ao Laos e às Filipinas, aterrissou no litoral cambojano para aplicar o que chamou de "o golpe mais pesado". Enquanto nos primeiros destinos o trabalho forçado era associado a plataformas de cassinos, desta vez ele seria obrigado a fingir ser parte da Polícia Federal e envolver vítimas com uma história que só terminava quando uma transferência bancária fosse concluída. Caso se recusasse, corria o risco de ser espancado, levar choques e ficar sem comida. Alencar, que prefere o nome pelo qual era conhecido nos complexos, foi um dos brasileiros traficados para o Sudeste Asiático com a promessa de remuneração alta e trabalho digno, mas que se viram envolvidos em uma rede de golpes digitais que simula, além da PF, órgãos públicos como as polícias civil e militar, o Ministério Público Federal, o Banco Central, o Tribunal de Contas da União, a Secretaria Nacional de Justiça e até empresas privadas, como a Meta. Crimes do tipo —que envolvem órgãos reais, citam nomes de agentes em serviço e convocam as vítimas até para falsas reuniões online— fazem do Camboja um dos principais destinos de brasileiros vítimas de tráfico humano. Alencar foi levado até a cidade de Sihanoukville, no litoral sul do país, e obrigado a participar do esquema. O município é descrito como um dos berços da indústria de golpes por ter sido o principal atingido por uma determinação que proibiu as apostas online em agosto de 2019 e levou ao fechamento de diversos cassinos. Com o veto, criminosos aproveitaram a infraestrutura física e de segurança dos espaços para dar vazão à operação ilegal. Hoje, porém, muitos dos complexos estão esvaziados, transformando áreas da cidade em regiões fantasma. Moradores e comerciantes afirmam que o cenário atual contrasta com o de antes, quando condomínios residenciais, hotéis e cassinos eram usados como centrais. Câmeras de segurança desativadas e muros com arame farpado permanecem, enquanto a presença constante de seguranças armados deixou de existir. O esvaziamento ocorreu após ações das autoridades cambojanas, que miraram Sihanoukville e outros polos de golpe quando países como a China e os Estados Unidos passaram a exercer pressão em decorrência do tráfico humano e das fraudes. Alencar desembarcou na cidade pouco mais de um ano após chegar ao Sudeste Asiático. Na sua primeira parada, no Laos, era obrigado a produzir conteúdo para uma plataforma de cassinos. Sem o retorno esperado de seu trabalho, foi transferido para as Filipinas, onde a ocupação se resumia a inserir anúncios de bets em conteúdo pornográfico e a subtrair o saldo de usuários em sites de apostas. Ainda assim, o lucro não satisfazia os criminosos, o que o levaria para um novo destino. Foi dada a ele a opção de escolher entre Indonésia e Camboja, e ele preferiu o segundo. "Quando começaram os trabalhos, a gente começou a entender que não era mais site pornô, que não era mais cassino. E ali começou o golpe da Polícia Federal", diz ele. "Eles montaram estrutura igualzinha a uma sala da Polícia Federal, com slogan, bandeiras, mesa, distintivo e até farda de policial, terno. Como se fosse um cenário." A Folha teve acesso ao roteiro usado pelos criminosos, um documento que detalha os passos a serem seguidos para que o golpe fosse bem-sucedido. O texto se espelha na dramaturgia, com informações sobre tom e expressão, além de apontar possíveis dúvidas das vítimas e indicar a resposta em cada situação. Na encenação, que pode durar dias, falsos policiais declaram que a vítima estaria envolvida em crimes de falsidade ideológica, estelionato e vazamento de dados pessoais. O gatilho para o envolvimento varia, com alguns roteiros determinando que o alvo teria alugado sua conta bancária e outros que um cartão de crédito no nome dele teria sido encontrado com membros de uma quadrilha. Para evitar que informações sobre a investigação sejam compartilhadas, os falsos agentes partem para a intimidação. "Você não quer que sua família, amigos e parentes se tornem bode expiatório do Fernandinho Beira-Mar, entendeu? Então você sabe a seriedade de manter o caso confidencial." Segundo Alencar, os criminosos forneciam tecnologias como emuladores de voz e filtros faciais a fim de evitar o reconhecimento. Os operadores dos golpes eram ainda orientados a pesquisar o nome real do delegado responsável pela delegacia citada para não levantar suspeitas. O roteiro usado por Alencar é semelhante a outros aos quais a Folha teve acesso, como o de um complexo de golpes na cidade de Poipet, na fronteira com a Tailândia. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Neste, o esquema começa com um falso agente da polícia civil, que exige o comparecimento do suspeito a uma delegacia. O alvo, porém, é direcionado a uma unidade a centenas de quilômetros da sua casa, criando a desculpa perfeita para que o depoimento seja prestado por videoconferência. A conversa, então, segue para o WhatsApp. "A Secretaria de Segurança Pública tem um acordo de confidencialidade com a empresa Meta. O que significa que o conteúdo da gravação está seguro", diz o falso investigador, segundo o documento, mencionando a empresa dona do aplicativo. Nomes como o do delegado Ronaldo Augusto Comar Marão Sayeg, titular do Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais), estão entre os citados, além de decretos e artigos do Código Penal. Fotos de falsos mandados de prisão, além de autorizações de bloqueio de bens, também são enviadas. Após constatarem que a vítima cooperou com a investigação, um falso promotor envia os dados bancários para a transferência. As transações são solicitadas sob o argumento de que seriam necessárias para identificar a fonte do dinheiro em conta, e que o valor seria guardado até o fim da investigação. As vítimas são obrigadas a fazer a operação durante a videoconferência e a apresentar o comprovante. À Folha a Polícia Federal afirmou que tem conhecimento do golpe que envolve o nome e a imagem institucional do órgão em esquemas no Sudeste Asiático. Segundo a corporação, o enfrentamento se dá "de forma ampla e contínua". "Nos casos em que os envolvidos se encontram no exterior, são empregados mecanismos de cooperação policial e jurídica internacional para compartilhamento de informações e envio de provas", diz, em nota. Um relatório da organização britânica Humanity Research Consultancy de maio de 2025 aponta que o tamanho estimado da indústria de golpes no Camboja varia de US$ 12,5 bilhões a US$ 19 bilhões. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho de 2026, contabilizou cerca de 347 mil estelionatos por meio eletrônico no ano passado, o equivalente a 15% dos 2,26 milhões de estelionatos registrados no país.
Rede criminosa no Camboja for�a brasileiros traficados a aplicar golpes fingindo ser da Pol�cia Federal
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