Receber juros todo m�s pode fazer voc� ganhar menos?

Receber juros todo m�s pode fazer voc� ganhar menos?

Receber juros todos os meses parece melhor do que esperar anos para ter acesso ao rendimento de um investimento. Afinal, dinheiro entrando regularmente na conta transmite a sensação de que o patrimônio está trabalhando. Mas essa preferência pode custar caro. Dependendo do destino dos pagamentos, receber juros antecipadamente pode reduzir a riqueza acumulada, embora, em outras situações, ajude a diminuir riscos. Na renda fixa, existem títulos que pagam juros mensalmente, semestralmente ou apenas no vencimento. Os títulos públicos Tesouro IPCA+ com juros semestrais, por exemplo, distribuem pagamentos a cada seis meses, enquanto outros títulos acumulam os rendimentos até o vencimento. A diferença não está necessariamente na rentabilidade oferecida, mas na maneira como o dinheiro chega ao investidor. É importante compreender que os juros recebidos não representam um ganho adicional. Quando um título paga um cupom, parte de seu valor econômico é transferida para a conta do investidor, e seu preço é ajustado para refletir essa distribuição. Portanto, não faz sentido comparar dois investimentos olhando apenas para o dinheiro que um deles deposita periodicamente. O principal efeito dos pagamentos antecipados aparece quando pensamos no reinvestimento. Considere R$ 100 mil rendendo hipoteticamente 10% ao ano durante dez anos. Se os juros forem integralmente reinvestidos à mesma taxa, o patrimônio chegará a aproximadamente R$ 259 mil. Se, em vez disso, o investidor retirar R$ 10 mil por ano para consumir, terá recebido R$ 100 mil ao longo do período e continuará com R$ 100 mil aplicados. A diferença de quase R$ 59 mil não significa que o título que paga juros periodicamente seja pior. Ela aparece porque, no segundo caso, os rendimentos foram consumidos e deixaram de produzir novos juros. Se todos os pagamentos fossem reinvestidos à mesma taxa, o resultado bruto poderia ser equivalente. O problema é que essa possibilidade nem sempre existe. Esse é o chamado risco de reinvestimento. Quem compra um título com remuneração atrativa e recebe juros periodicamente precisa encontrar novas aplicações para esse dinheiro. Se as taxas de mercado caírem, poderá reinvestir os pagamentos a uma rentabilidade inferior àquela contratada originalmente. Já em um título sem pagamentos intermediários, mantido até o vencimento, a remuneração contratada não depende de encontrar novas taxas para os juros recebidos ao longo do caminho. Existe ainda o efeito dos impostos. Nos títulos tributáveis, o recebimento periódico de juros normalmente provoca a cobrança de Imposto de Renda sobre cada pagamento. Assim, o investidor que pretende reinvestir os valores contará apenas com o montante líquido dos tributos. Quando os rendimentos permanecem acumulados em um título sem cupons, o imposto geralmente é recolhido apenas no resgate ou vencimento, permitindo que uma parcela maior do dinheiro continue produzindo juros. Entretanto, essa desvantagem tributária desaparece em títulos cujos rendimentos são isentos de Imposto de Renda para a pessoa física, como determinadas debêntures incentivadas. Nesses casos, os juros recebidos podem ser integralmente reinvestidos, sem o desconto do imposto. Ainda assim, permanece o risco de reinvestimento: se as taxas de mercado caírem, talvez não seja possível reaplicar o dinheiro com a mesma remuneração. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. Há também uma vantagem dos pagamentos periódicos que merece atenção, especialmente nos títulos de crédito privado. Os juros recebidos antecipam parte do retorno e podem diminuir o prejuízo econômico total em caso de inadimplência futura, embora não reduzam o principal ainda exposto ao emissor. Já as amortizações periódicas diminuem diretamente esse saldo, oferecendo uma proteção adicional. Isso não significa que devemos preferir sempre títulos com pagamentos periódicos. Uma empresa financeiramente frágil não se torna um bom investimento apenas porque distribui juros mensalmente. É necessário avaliar a qualidade do emissor, as garantias, a remuneração oferecida e o cronograma de pagamentos. Os cupons podem mitigar parte das consequências de uma inadimplência, mas não substituem uma análise adequada do risco de crédito. Para quem precisa complementar a aposentadoria ou financiar despesas recorrentes, receber juros também pode ser conveniente. O dinheiro chega sem que seja necessário vender parte da carteira, o que ajuda a organizar o orçamento e pode reduzir a necessidade de negociar investimentos em momentos desfavoráveis. Entretanto, é importante observar a frequência dos pagamentos. Muitos títulos públicos distribuem juros semestralmente, enquanto as despesas domésticas chegam todos os meses. Por isso, mesmo quem busca renda precisa planejar o calendário dos recebimentos e manter uma reserva para distribuir esses recursos ao longo do tempo. Uma carteira com vencimentos escalonados também pode cumprir essa função, sem depender exclusivamente de títulos com cupons. Há outro cuidado. Alguns investidores acreditam que receber juros preserva integralmente o patrimônio, porque continuam mantendo a mesma quantidade de títulos. Mas o valor econômico de um investimento não é determinado apenas pelo principal que será devolvido no vencimento. É necessário considerar os pagamentos já realizados, a inflação, a evolução do preço do título e a rentabilidade total obtida. Também não devemos confundir a frequência dos pagamentos com a qualidade do investimento. Um título que distribui juros mensalmente pode oferecer uma taxa inferior à de outro que paga apenas no vencimento. Pode ainda apresentar maior risco de crédito ou menor liquidez. A decisão precisa considerar o retorno total esperado, os impostos, os riscos e a necessidade de utilizar os recursos ao longo do tempo. Receber juros periodicamente não é uma vantagem por si só, assim como acumulá-los até o vencimento não é necessariamente melhor. O que importa é saber se o dinheiro deve continuar trabalhando, financiar suas despesas ou retornar antecipadamente para reduzir sua exposição ao risco. Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? 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