'Recauchutar' um texto me deu vontade de falar dessa palavra

'Recauchutar' um texto me deu vontade de falar dessa palavra

A coluna anterior —sobre a primavera e nada mais que a primavera!— estava aqui no meu computador há várias semanas. Teria sido publicada logo depois do primeiro turno, mas aí aconteceram umas coisas, né... Passada essa onda, na hora de decidir o que escrever, acabei optando por "recauchutar" o texto. E agora me deu vontade de falar justo dessa palavra, que é do meu tipo preferido: as que deram as suas voltinhas. Seu significado básico é "recobrir de nova camada de borracha um pneu que já não vive seus melhores dias". Só que a partir daí rolou uma bela de uma extensão de sentido e o verbo passou a querer dizer algo como "dar um up", "repaginar". Uma busca rápida aqui nesta Folha encontra até um exemplo de "dar uma recauchutada nos glúteos". Só que em "repaginar" a origem da coisa fica clara porque a gente continua usando a palavra "página". É uma espécie de metáfora que se emprega conscientemente. A "recauchutagem", no entanto, sofre um pouco mais porque sua base se perde na proverbial poeira dos tempos. O radical vem do francês "caoutchouc", que por lá tem pura e simplesmente o sentido de "borracha". Mas a cara diferentona da palavra aponta para uma origem ainda mais distante e não decepciona. Sua fonte está no quíchua, língua originária da América do Sul, ainda hoje falada por mais de 7 milhões de pessoas. Nada de estranho nisso. A seringueira —árvore que fornece o látex— é nativa da região amazônica; então trata-se de um caso claro em que a palavra chega junto com a coisa que denomina. "Ei, bacana essa coisinha grudenta aí. Como é que chama mesmo?" "Kawchu!" (Aliás... E a nossa "borracha"? A palavra vem do espanhol e se referia a certos odres de couro onde se guardavam bebidas. Daí "borracho" querer dizer também "embriagado". Quando na América começaram a surgir odres feitos com aquela nova goma, a boa e velha metonímia fez com que o nome da coisa virasse o nome do material de que era feita.) O fato de eu hoje poder dizer que estou "recauchutando" um texto embute séculos de história, colonialismo, trocas culturais e econômicas, num polígono Amazônia-Espanha-França-Portugal-Brasil. E revela uma metáfora perdida, já que a gente mal liga o sentido atual do termo a borrachas e pneus. Em algum momento a manobra por trás do uso amplo de "recauchutar" pode ter sido tão clara quanto a de "repaginar". Mas o tempo e a distância entre os idiomas acabaram obscurecendo o processo. E é assim que agora a gente precisa dar uma pesquisada para enxergar uma metáfora escondida e ter mais chance de entender a ideia do filósofo norte-americano Ralph Waldo Emerson de que "a língua é poesia fossilizada". Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha P.S.: Para quem ficou insatisfeito com a lista incompleta da semana passada: outono vem do latim "autumnus", com o mesmo sentido. Inverno, de um latim "hibernus", que já significava inverno. Meio monótono, né? Mas olhando em volta, sempre tem alguma graça. Afinal aquele "autumnus" do latim é tipo o verso de Camões: "nasce não sei onde, vem não sei como". E pode muito bem ser uma palavra etrusca, antiquíssima e pré-latina, o que já lhe acrescenta mistério e interesse. Do outro lado das estações frias, "hibernus" nos faz lembrar que a gente também ficou com um derivado foneticamente mais conservador, "hibernar". Afinal, quando um urso se recolhe à toca ele está apenas "invernando", resistindo ao inverno. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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