[RESUMO] O reality show de Viih Tube e Eliezer com empregados domésticos, criticado por espetacularizar a humilhação alheia, expõe os prejuízos sociais causados por formadores de opinião sem compromisso ético. Para o autor, é preciso enfrentar o ecossistema das redes sociais por meio de uma renovação da mentalidade que enfraqueça o prestígio social da publicidade de si mesmo. Eis que, há pouco mais de um mês, mais uma polêmica envolvendo influenciadores digitais tomou de assalto o noticiário. Falo, é claro, do reality show criado pelo casal Viih Tube e Eliezer, cuja premissa era submeter os próprios empregados da família a uma série de provas ao longo das quais disputariam um prêmio de até R$ 50 mil. Em um dos desafios propostos, um funcionário chegou a remexer um vaso sanitário e um lixo cheio de papel usado para pegar moedinhas de plástico. Muita gente viu, no formato do programa, a velha espetacularização da humilhação alheia. Diante da repercussão negativa e de uma apuração aberta pelo MPT (Ministério Público do Trabalho), Viih Tube e Eliezer apressaram-se a prestar esclarecimentos. Segundo eles, não só haveria um contrato adicional entre patrões e empregados, que teriam aceitado de bom grado participar, como a intenção do reality show seria justamente chamar a atenção para as pautas tão importantes, tão populares, da precarização do trabalho e do fim da escala 6x1. Os influenciadores fecharam um acordo para pagar R$ 350 mil ao Estado por dano moral coletivo e se comprometeram a encerrar o reality show e removê-lo das redes sociais. É possível que dessa vez o vale-tudo por curtidas tenha ido longe demais, sentiram alguns. Mas talvez seja preciso enxergar o episódio como mais um triste retrato de uma época em que o exibicionismo virtual converteu-se em uma espécie de doença. O casal de influenciadores é conhecido por expor o cotidiano da família, inclusive dos filhos pequenos, nas redes sociais. Nisso, contudo, não difere de outros tantos da mesma categoria, narcisistas que concebem a vida como espetáculo autopromocional e estão dispostos a fazer da sua intimidade um "conteúdo" a ser "consumido" pelos seus "seguidores". Em troca de engajamento, cabe até contar mentiras, provocar escândalos fugazes, comportar-se com depravação hoje para proferir um discurso virtuoso amanhã. Quando conquistam alto número de visualizações e interações com as suas postagens, influenciadores atraem patrocínios e solicitações de colaboração por marcas. Passando a fazer publicidade no mesmo espaço em que postam registros diários de suas viagens, festas e almoços em família, eles se tornam ao mesmo tempo os promotores das mercadorias e as mercadorias que promovem. Estamos no império da aparência, que é também o império da quantidade. Pouco importa se, a um olhar mais exigente, um influenciador ou o seu público são desprezíveis. Para a lógica do espetáculo, audiência numerosa é por si só uma qualidade positiva. O mercado das redes sociais, movido pela disputa por atenção, conduzido por algoritmos nebulosos e sujeito no Brasil a um quadro regulatório ainda limitado, induz os indivíduos a forjar sua própria imagem conforme os critérios da racionalidade publicitária, transformando-os em empresários de si mesmos, para usar uma expressão foucaultiana retomada por Pierre Dardot e Christian Laval. Nesse sentido, deve ser visto como mais um passo da dominação da economia sobre a vida comunitária. Porém, não será aumentando o controle do Estado sobre a internet, com projetos de regulamentação ou com qualquer política de vigilância, que o problema será resolvido. O ponto central aqui não é de legalidade. Proíbam-se os crimes e a desinformação; a concepção da vida como autopromoção continuará a provocar danos no tecido social, ao menos enquanto houver plateia. Se o caso dos influenciadores digitais nos parece tão significativo é porque ele põe em questão o postulado da liberdade individual e da suposta capacidade dos seres humanos de se autogovernar. No mundo ideal do liberalismo, um povo composto de indivíduos racionais deve estar apto a medir as consequências de seus atos e decidir o que é melhor para si mesmo. Ora, sabe-se que os algoritmos, moldados pelas ambições pecuniárias de grandes empresas de tecnologia, levam ao usuário das redes sociais conteúdos que estão fora do seu interesse imediato, a fim de lhe reter a atenção e suscitar interações, influenciando sub-repticiamente seus gostos e preferências. Por outro lado, é inegável que ele continua sendo livre para curtir o que quiser e seguir quem bem entender. Em última instância, a decisão quanto ao que assistir e postar é sua. Assim, quando deparamos com os milhões de seguidores de uma Viih Tube e de um Eliezer, somos forçados a nos perguntar o que levou tanta gente a segui-los. É verdade que ambos viraram figuras públicas em um reality show, o Big Brother Brasil, mas a fortuna que acumularam desde o fim do programa deve-se ao engajamento conquistado na internet. Aí, nesse espaço "democrático", em boa medida isento da mediação de instituições democráticas, a massa digital tem o poder de, sem sair de casa, eleger ídolos dessa estirpe. Imitar ou observar o comportamento, as vestimentas, as opiniões das celebridades é uma prática comum desde antes da invenção de qualquer star system, mas a ilusão de proximidade criada pelas redes é novidade. Seguidores e curiosos são convidados a tomar parte na rotina do influenciador. Por meio de vídeos e fotos, conhecem sua casa, seu quarto, seu banheiro; em uma votação aberta no Instagram, escolhem o nome do cachorro que acabou de comprar, a cor da roupa que vai vestir na festa de um magnata, o tipo de corte que vai pedir ao cabeleireiro. Tal proximidade ilusória põe em movimento, na psicologia dos seguidores, mecanismos de comparação e um olhar que flutua entre a admiração e a inveja. Todo consumidor de conteúdo é um potencial produtor de conteúdo. Logo, sentindo-se íntimo do seu ídolo e seduzido pela promessa de um sucesso não tão distante, quem antes seguia agora quer ser seguido. A princípio, é um alento às nossas aspirações democráticas que alguém vindo de fora dos grandes circuitos culturais, sem sobrenome e sem contatos, tenha instrumentos a seu dispor para produzir e divulgar textos e vídeos. De resto, os tradicionais institutos de ensino, veículos de comunicação e meios artísticos já deram projeção imerecida a uma infinidade de exibicionistas lamentáveis. Porém, como proceder quando um produtor de conteúdo anônimo, cidadão livre de uma democracia, é um irresponsável ou um impostor, quiçá mesmo um mal-intencionado? E mais: como lidar com os ignorantes que, por carisma ou sensacionalismo, obtêm alcance avassalador nas plataformas digitais, contribuindo para a boçalidade geral da nação? Não é preciso sequer evocar o exemplo dos influenciadores que divulgam bets para percebermos os prejuízos sofridos por qualquer sociedade, sobretudo em um país com graves déficits educacionais, quando há tantos formadores de opinião que, sem compromisso ético, sem rigor intelectual e sem qualificação, dizem o que lhes passa pela cabeça. Não adianta bradar por regulamentação ou criminalização nem por ampla transformação social enquanto não mudamos o conjunto de condutas e valores estimulados pelas redes, onde ganha quem fala mais alto e a aparência é mercadoria a ser consumida. Não se combatem crimes e desmandos digitais sem se enfrentar, a partir de uma gradual renovação da mentalidade, o ecossistema que permite que se propaguem. Muitos séculos antes de Adam Smith apontar para a natureza especular da riqueza, que se caracteriza pela necessidade que tem de ser vista, o satirista Luciano de Samósata observou que "não há vantagem nenhuma em habitar uma casa esplendorosa e possuir ouro e marfim, se não houver alguém que admire tais bens". De maneira análoga, não haveria razão para se exporem ninharias e vulgaridades cotidianas na internet caso ninguém demonstrasse curiosidade por elas. De onde vem, pois, a tara por acompanhar pela tela do celular o dia a dia de um desconhecido, como em uma espécie de seriado? É preciso levar em conta, em primeiro lugar, que os usuários costumam acessar as redes apenas para se distrair, preferindo conteúdos que não fazem nem querem fazer pensar. Além do mais, influenciadores exibem um estilo de vida almejado por um grande número de pessoas, cujos ingredientes principais são viagens, sucesso profissional, realização pessoal, luxo —tudo isso, naturalmente, apresentado como mercadoria. No entanto, se é certo que o consumo de bens materiais está ligado também à construção da nossa identidade e à busca por status e prestígio, então a única maneira de provocar abalos no regime de consumo autopromocional das redes seria quebrar o encanto simbólico suscitado pela espetacularização da vida e desmascarar os ideais espetacularizados, a fim de que voltassem a ser o que realmente são, enganosos ou insignificantes. No século 2, Luciano já havia dado uma sugestão, aparentemente utópica mas muito lúcida, para corrigir a perversão axiológica que torna a riqueza tão desejável. Bastaria que erguêssemos "uma muralha de desdém" entre nós e ela e de pronto os ricos despencariam do pedestal. Quem sabe não poderíamos tentar o mesmo em relação à autopromoção nas vitrines digitais? Evidentemente, tal tarefa é impensável sem se restabelecerem, a longo prazo, formas de reconhecimento social baseadas na competência, no conhecimento, na contribuição intelectual, que reduzissem o prestígio conferido à mera exposição da vida privada. Para realizá-la, seria preciso apostar que ainda resta ao cidadão comum algum poder sobre suas próprias escolhas. Expressões como "detox digital" e "quit social media" ganham cada vez mais força nas discussões sobre os estragos causados à saúde mental pelo uso excessivo de Instagram, TikTok, YouTube etc. A obra de Cal Newport, autor best-seller que defende a ideia de "minimalismo digital", tem ajudado a popularizar o argumento científico de que as redes atrofiam nossa capacidade de concentração. Ainda assim, o fato crítico com que temos de lidar hoje concerne antes de tudo ao campo dos costumes e valores. Há um enorme caminho a percorrer, no domínio cultural, até que deixemos de considerar a publicidade de si mesmo um ideal socialmente prestigioso.
Reality de Viih Tube e Eliezer com empregados retrata exibicionismo que vira doen�a
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