A Superintendência-Geral do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) aprovou a operação prévia apresentada por MSC e Maersk para saída do BTP (Brasil Terminal Portuário), em Santos, no âmbito da disputa pelo Tecon Santos 10. A decisão foi publicada no fim da noite desta segunda-feira (17). O novo terminal de contêineres será construído no porto de Santos, com licitação aguardada pelo governo. A operação foi contestada pela International Container Terminal Services Inc. (ICTSI), operadora filipina que pediu para ingressar nos processos como terceira interessada, que também deve participar do leilão. Tanto a aprovação do caso quanto a rejeição da empresa filipina foram antecipadas pela Folha. O negócio prevê uma reorganização da participação das duas empresas no BTP. MSC e Maersk são sócias do terminal e, pelo acordo apresentado ao Cade, uma delas venderá sua participação à outra caso vença o futuro leilão do Tecon Santos 10. Assim, a armadora que vencer a disputa pelo novo terminal deixará de ter participação no BTP, enquanto a outra ficará com a totalidade do ativo. A aprovação da área técnica não encerra o caso. O tribunal do Cade tem até 15 dias para determinar uma avaliação mais aprofundada caso entenda que os efeitos concorrenciais da operação não foram suficientemente examinados pela área técnica do órgão. O acordo ocorre em meio à disputa sobre as regras do Tecon Santos 10. O terminal será uma nova estrutura para movimentação de contêineres no porto de Santos e é considerado estratégico para ampliar a capacidade do complexo portuário. A principal discussão envolve justamente quem poderá disputar a licitação: empresas que já atuam no porto, incluindo grandes armadores, ou apenas novos operadores. A modelagem discutida pelo governo e pela Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários) passou por diferentes versões, mas ainda não há decisão final. Uma das propostas restringia a participação de empresas já instaladas em Santos. O TCU (Tribunal de Contas da União) também manifestou preocupação com a entrada de empresas já instaladas e defendeu restrições à participação de armadores. Posteriormente, ganhou força no governo uma alternativa que permitiria a participação de grupos já presentes no mercado, desde que eles se desfizessem de ativos existentes caso vencessem a disputa. É nesse contexto que MSC e Maersk estruturaram o acordo levado ao Cade. Embora não caiba ao órgão definir quem participará do certame, as empresas avaliam que, com o aval, há um caminho aberto para a participação na corrida pelo novo terminal. "Inexiste nexo causal entre o ato de concentração ora analisado e a definição do resultado do certame, o qual permanece incerto, assim como o próprio desenho regulatório da licitação", escreveram os técnicos do Cade no parecer que deu aval à operação.A Superintendência-Geral negou o pedido da ICTSI de participar da análise sob o argumento de que a empresa não comprovou como será afetada pela operação, já que hoje não atua no complexo portuário de Santos. A ICTSI sustentava que o acordo entre as duas armadoras não produziria uma desconcentração efetiva do mercado, mas apenas distribuiria entre MSC e Maersk os dois ativos. Segundo a empresa, mesmo que uma das armadoras deixe o BTP para assumir o Tecon Santos 10, as duas continuarão com presença relevante no mercado de terminais de Santos. A empresa citou estudo segundo o qual MSC e Maersk responderam juntas por 49,1% da demanda de movimentação de contêineres em Santos. A ICTSI também argumentou que BTP e Tecon Santos 10 serão terminais vizinhos, o que poderia ampliar ganhos de escala e escopo para as empresas que permanecerem com os ativos. Outro ponto levantado pela filipina foi o histórico de associação entre MSC e Maersk. As duas são sócias do BTP e mantiveram durante anos a aliança 2M no transporte marítimo. Para a ICTSI, essa relação poderia facilitar a troca de informações concorrencialmente sensíveis e criar riscos de coordenação entre as empresas. Os técnicos do Cade, no entanto, afirmaram que esses argumentos "não ultrapassam o campo das conjecturas e carecem de elementos probatórios mínimos aptos a sustentar a existência de divisão de mercado, troca de informações concorrencialmente sensíveis, fraude à licitação ou qualquer outra infração à ordem econômica". A companhia também questionou os incentivos criados pelo acordo para a própria disputa pelo Tecon Santos 10. Na avaliação da ICTSI, cada armadora passaria a disputar o leilão sabendo que, em caso de derrota, teria assegurada uma posição no BTP. A empresa chegou a sustentar que o arranjo poderia configurar coordenação entre concorrentes e pediu investigação específica sobre o tema. A ICTSI também queria que os processos fossem retirados do rito sumário e submetidos a uma análise mais aprofundada, além de pedir que a avaliação fosse suspensa até a publicação do edital definitivo do Tecon Santos 10. "A operação mostra-se no mínimo neutra, sob a ótica de efeitos coordenados, na medida em que não reduz a rivalidade existente, não cria mecanismos adicionais de coordenação entre concorrentes e, ao encerrar a relação societária no BTP, tende a reforçar os incentivos para que cada agente maximize de forma independente o desempenho econômico de seu próprio terminal no Complexo Portuário de Santos", rebateram os técnicos do Cade. O QUE É O TECON 10 O megaterminal será instalado em uma área no bairro do Saboó, em Santos, de 622 mil metros quadrados. O projeto é que seja multipropósito, movimentando contêineres e carga solta. O vencedor do leilão será definido pelo modelo da maior outorga: ganha quem oferecer mais dinheiro pelo direito de construí-lo e operá-lo. Serão quatro berços, como são chamados os locais de atracação do navio para embarque e desembarque. A previsão de investimento nos 25 anos de concessão pode chegar a R$ 40 bilhões.
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