Antes de uma grande chuva cair, ela se anuncia no céu. No latim, cumulus significa "pilha" ou "acúmulo"; nimbus, "nuvem de chuva". Juntos, dão nome à cumulonimbus, a nuvem associada a uma grande tempestade, que se entrega pela mudança total do tempo, com trovões, ventos e raios. O termo batiza também o novo disco de Rashid, que transforma em música o seu próprio acúmulo de duas décadas de carreira, fazendo de suas inquietações pessoais a sua tempestade. Lançado em agosto, "Cumulonimbus" transforma 15 faixas em uma espécie de manifesto, que guia o rapper ao longo do álbum. "Eu voltei para a base, para a essência. Beat e rima, MC e DJ". O show de estreia do disco acontece neste sábado (12), no Sesc Belenzinho, como parte da programação do festival que comemora os 80 anos do Sesc. Apesar de voltar no tempo, Rashid não quis fazer um álbum que parecesse ter saído dos anos 1990 ou 2000. "Não soa da época, mas o espírito está ali", diz. E é isso que ele busca, esse espírito que o fez se apaixonar pelo gênero ainda quando garoto. "O espírito de quando uma música podia se estender por minutos e o ouvinte permanecia ali, atento ao que o MC tinha para dizer." "Cumulonimbus" nasce dessa memória, mas também de uma inquietação diante do presente. O crescimento do gênero ampliou suas possibilidades e levou artistas brasileiros do rap a lugares que pareciam improváveis algumas décadas atrás. Ao mesmo tempo, na avaliação de Rashid, a expansão trouxe uma distância em relação a alguns dos valores que formaram a cultura do rap no Brasil. Ele próprio reconhece ter participado desse movimento. Houve um momento em que parecia necessário esticar a corda, aproximar-se de outros gêneros, alcançar novos públicos. "A gente precisava falar com a música popular brasileira, a gente precisava chegar nesses lugares", afirma. Depois de ir longe, porém, veio a vontade de retornar. "O ‘Cumulonimbus’ é esse lugar. A gente foi longe, esticou a corda. Agora é hora de voltar para casa." A casa é o rap, mas não um rap congelado no tempo. Rashid não está interessado em decretar o que o gênero deve ser. Seu incômodo está na tentativa de transformar a música em uma fórmula, submetida à mesma lógica acelerada das redes sociais, de pura ostentação e já muito distante do que acontece nas ruas e comunidades. Essa tensão aparece em "O que Dizem os Números". A música começou como brincadeira técnica. "Eu queria fazer uma letra sobre números", diz. Para Rashid, ela mostra a força do MC, o de prender pela palavra e rima. Com muita pesquisa, a música ultrapassou a brincadeira e se tornou uma faixa que trata de temas que vão da escravidão no Brasil até ausências familiares e desigualdades. O rap não corre riscos quando é político, estatístico, melódico ou experimental, na opinião do músico. Porém, no momento em que perde a capacidade de dizer alguma coisa que faça o ouvinte parar, a música corre o risco de virar apenas mais uma peça de conteúdo. "A música vira outra coisa, ela vira trilha para foto." Em "Criado por Mulheres", faz uma ponte para as mulheres que, segundo ele, recuperaram uma fome que parte da cena perdeu. Rashid cita Duquesa e outras artistas de um rap ligado ao cotidiano, à quebrada e à coletividade. "Essa fome é a fome que muita gente perdeu", afirma. O que o impressiona não é a presença feminina, mas a maneira como essas artistas parecem carregar umas às outras. "Quando você olha para uma, você vê todas." A observação ajuda a explicar também por que o álbum é tão povoado. Rashid chama outros artistas e representantes da cultura para perto, como Luedji Luna, Jota Ghetto e MC Neguinho do Kaxeta. Emicida e Projota, parceiros de longa data, dividem uma faixa sobre a amizade do trio. Outra presença ilustre é Cairo, filho de Rashid. Uma das frases do menino —"papai, o sol já chegou"— ficou gravada em uma música. Cairo já não fala daquela maneira, mas agora o momento existe para sempre dentro do álbum. Rashid não quer "trazer o rap de volta". Como ele próprio faz questão de dizer, "o rap tá aí". "O rap pode ser o que ele quiser ser, ele só precisa ser de verdade." No fundo, o rapper quer provocar no ouvinte uma sensação antiga. A mesma que teve quando descobriu Racionais MCs, RZO, Sistema Negro e outros grupos que, para ele, eram companhia e formação. "O rap foi isso para mim, cara. Os MCs foram meus irmãos, foram meu pai, foram meus tios, foram meus amigos." Para quem sente falta daquele rap, há uma mensagem de reconhecimento. "Eu entendo você. Eu tô do seu lado." Para quem nunca teve contato com essa chama, fica o convite para procurá-la. "Você procura a música que vai te formar. Você vai atrás da batalha de rima. Você procura o livro, o filme", diz. "Você toma o protagonismo." Se "Cumulonimbus" conseguir provocar esse movimento em alguém, mesmo que em uma única pessoa, Rashid considera a tempestade bem aproveitada. "Eu quero ser a mão que vai acender o isqueiro para você quando você achar que a cachimba está apagando."
Rashid volta �s raizes do rap em 'Cumulonimbus' e faz do novo disco uma tempestade
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