O PT nasceu nos sindicatos do ABC paulista e construiu sua identidade nos movimentos sociais. Hoje, suas experiências mais duradouras de governo estadual estão no Nordeste. No Piauí, chegou ao poder em 2003, com Wellington Dias, bancário e ex-sindicalista. Seu sucessor, Rafael Fonteles, 41, foi reeleito com 70,90% dos votos válidos. Lula recebeu 75,88% no estado, seu maior percentual no segundo turno presidencial. André Singer explicou o lulismo pelo realinhamento de 2006, que aproximou Lula dos setores populares pela melhoria material e proteção do Estado. O Piauí permite ampliar essa interpretação. Chamamos de petismo pragmático a combinação desse apoio com cinco outras dimensões: alianças entre antigos rivais, novos dirigentes, ampliação de agendas, comunicação personalizada e legitimidade estadual própria. A incorporação das elites tradicionais é central. Wellington derrotou em 2002 Hugo Napoleão, ex-governador ligado ao antigo PFL, hoje no PSD, aliado estadual do PT. Em 2026, Fonteles foi recebido por Mão Santa, ex-governador que dizia que "nascer, morrer e votar no PT" eram coisas que só se faziam uma vez. Fonteles derrotou Joel Rodrigues (PP), com 27,54% dos votos; Ciro Nogueira (PP), ex-aliado de Wellington, perdeu o Senado para Marcelo Castro (MDB) e Júlio César (PSD), ambos apoiados pelo governador reeleito. Outra dimensão é o recrutamento de dirigentes. Wellington teve como vice Regina Sousa, ex-quebradeira de coco e sindicalista. Fonteles, matemático com mestrado no Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada) e ex-secretário da Fazenda, reuniu Washington Bandeira, ex-juiz do Trabalho e vice-eleito, e Chico Lucas, ex-presidente da OAB-PI e secretário nacional de Segurança Pública. Os três estudaram no Instituto Dom Barreto, em Teresina; Chico era bolsista. Apelidado de "Rafaboys", em referência às boy bands, o círculo revela o peso das credenciais profissionais e da confiança pessoal. No petismo pragmático, ganham centralidade segurança pública, inteligência policial, agronegócio, investimentos privados e responsabilidade fiscal. A incorporação de temas associados à direita amplia o diálogo com diferentes eleitores. A comunicação política também muda. Nas redes do governador, indicadores dividem espaço com humor e cotidiano. Os vídeos familiares e as corridas por rodovias para anunciar asfalto personalizam o governo. A estratégia ganhou projeção nacional quando Rafael Fonteles atuou na campanha de Lula e sugeriu vídeos em formato de selfie. Por fim, a circulação do capital político em duas direções é central para entender o petismo pragmático. No primeiro turno de 2026, Lula teve 70,99% dos votos válidos no Piauí; Fonteles, 70,90%. Na Bahia e no Ceará, Lula superou em cerca de dez pontos os governadores petistas. O caso piauiense mostra que a identificação com Lula sustenta governadores, que também oferecem ao projeto nacional redes e capacidade de mobilização. O petismo pragmático reúne esses mecanismos e suas tensões. A incorporação de rivais restringe as alternativas da oposição; as redes pessoais modificam a relação entre governo e partido; a ampliação da agenda redefine quais demandas ganham visibilidade. O estado do Piauí mostra como governar por décadas transforma o PT e oferece lições para a sua continuidade. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
Rafael Fonteles e o pragmatismo petista
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.