Imagine que sua cidade enfrentará uma longa falta d’água. Você pode escolher entre receber uma quantidade de água todos os dias, enquanto durar o problema, ou ter imediatamente um grande reservatório cheio. A primeira alternativa garante um abastecimento parcial ao longo do tempo. A segunda permite administrar a necessidade, mas o reservatório pode acabar antes de a falta d’água terminar. Qual é melhor? Depende de quando e por quanto tempo você precisará da água. Um cliente me trouxe recentemente uma dúvida semelhante sobre seu seguro. Caso determinado evento grave acontecesse, ele poderia receber R$ 10 mil por mês, corrigidos pela inflação, pelo restante da vida. A alternativa consultada era contratar uma cobertura que lhe pagaria R$ 2 milhões de uma só vez. Mas havia um detalhe importante: esta segunda opção custava cerca de 40% menos. Qual escolher? Quando se fala em seguro de vida, muita gente pensa apenas no dinheiro deixado para a família depois da morte. Mas existem também coberturas recebidas pelo próprio segurado enquanto está vivo, como em casos de doenças graves, incapacidade temporária e invalidez. É nesse tipo de proteção que surgem duas perguntas pouco discutidas: é melhor receber um grande capital imediatamente ou garantir uma renda ao longo da vida? E, se a escolha for pelo capital, qual valor hoje seria equivalente a essa renda futura? A conta mais intuitiva seria dividir R$ 2 milhões por R$ 10 mil. São 200 meses, ou 16 anos e oito meses. Como os R$ 10 mil ainda seriam corrigidos pelo IPCA, à primeira vista a renda pareceria ainda mais vantajosa para quem recebesse o benefício por mais tempo. Mas essa conta compara dinheiro disponível hoje com dinheiro que chegará durante muitos anos. Se fosse possível investir os R$ 2 milhões com retorno líquido de 5% ao ano acima da inflação, esse patrimônio poderia gerar cerca de R$ 100 mil anuais em valores de hoje, equivalentes a aproximadamente R$ 8.300 por mês. Já a renda do seguro seria de R$ 10 mil. Portanto, a diferença econômica entre as alternativas é muito menor do que comparar simplesmente R$ 2 milhões com R$ 10 mil. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. É aqui que a idade começa a importar. Se o evento ocorrer aos 40 anos e a pessoa viver outras quatro décadas, o valor da renda pode ser muito relevante. Se ocorrer aos 70 e o período de recebimento for bem menor, a comparação muda completamente. Além disso, dependendo do sinistro que aciona o seguro, a expectativa de vida após o evento pode ser diferente daquela da população em geral. Projetar automaticamente 30 ou 40 anos de pagamentos pode superestimar o benefício. O patrimônio existente também muda a decisão. Depois de um acidente ou diagnóstico grave, pode ser necessário adaptar a casa, trocar o carro, adquirir equipamentos ou pagar tratamentos. Imagine precisar de R$ 300 mil imediatamente e possuir pouca reserva financeira. R$ 10 mil mensais ajudam nas despesas recorrentes, mas não resolvem aquela necessidade inicial. Os R$ 2 milhões resolvem. Por outro lado, receber todo o capital transfere riscos para o segurado. Ele precisará administrar o dinheiro e pode obter rentabilidade menor que a esperada, gastar demais ou viver muito mais do que imaginava. Há ainda uma diferença patrimonial: o capital não utilizado continua pertencendo ao segurado e pode permanecer para seus herdeiros, enquanto a continuidade da renda após a morte dependerá do contrato. Essa talvez seja a forma mais simples de enxergar a escolha: a renda protege contra o risco de viver muito e o capital protege contra o risco de precisar de muito dinheiro agora. No caso do cliente havia ainda o preço. Se a cobertura de R$ 2 milhões custava 40% menos, não bastava concluir que a renda poderia pagar mais ao longo da vida. Essa diferença precisava ser suficiente para compensar também o custo maior da proteção. Uma alternativa natural seria perguntar quanto de capital seria necessário para produzir os mesmos R$ 10 mil mensais. Uma referência seria dividir a renda anual de R$ 120 mil por uma taxa real de 5%. O resultado é R$ 2,4 milhões. Investido a essa taxa, esse capital poderia gerar os mesmos R$ 120 mil anuais, preservando, em tese, seu valor real. No caso analisado, mesmo elevando a cobertura para esse montante, o custo ainda seria menor. Mas há uma hipótese importante nessa conta: conseguir manter uma rentabilidade real de 5% ao longo do tempo. Se os juros reais caírem, será necessário consumir parte do patrimônio para manter a mesma renda. Por isso, talvez a pergunta não seja apenas se é melhor receber renda ou capital, mas quanto capital seria necessário para substituir aquela renda. Idade, patrimônio, liquidez, gastos imediatos, horizonte de recebimento e capacidade de administrar os recursos continuam sendo fundamentais para essa resposta. É como na falta d’água. Talvez a escolha não precise ser entre receber água diariamente ou aceitar um reservatório pequeno demais. A solução melhor pode ser dimensionar um reservatório capaz de substituir aquele abastecimento periódico. No seguro, o raciocínio é semelhante: antes de escolher entre renda e capital, é preciso calcular o tamanho do reservatório de que você realmente precisa. Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
R$ 2 milh�es hoje ou R$ 10 mil por m�s pelo resto da vida?
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