Estradas de terra cercadas pela vegetação da caatinga serpenteiam as pequenas povoações na zona rural de Salgueiro, cidade de 60 mil habitantes do sertão central de Pernambuco. Uma delas leva até a comunidade quilombola Jurema, onde não há um núcleo urbano e as casas ficam distantes uma da outra. Ali, em uma casa de alvenaria ventilada, cuja frente abriga um alpendre com redes de descanso, vive a aposentada Angelita Alzira dos Santos. Aos 69 anos, ela segue com as mãos na enxada e trabalhando na terra, onde cultiva milho e feijão. A safra deste ano não foi lá muito boa. As espigas de milho brotaram murchas, mas o feijão rendeu duas sacas e meia, que ela pacientemente transferiu para garrafas de refrigerantes vazias. Mas a dificuldade não abalou em um centímetro o otimismo quase inato com que lida com a vida. Como vê a situação do Brasil? "Por enquanto, eu não sei dizer nada não, mas creio que não está piorando. Eu estou achando ainda bom. O governo Lula, acho que foi a melhor coisa que Deus mandou." Angelita é uma lulista convicta. Diz que sempre votou no atual presidente, que nasceu em uma não tão distante Garanhuns, no agreste pernambucano, e teve uma origem parecida com a dela. A realidade desta quilombola que passou toda a vida na comunidade de Jurema vai muito além do dualismo entre direita e esquerda, da polarização entre Lula e a família Bolsonaro. Vota com convicção naquele candidato que acha que beneficiou sua vida e sua comunidade. Há dois anos, na eleição municipal, um grupo de militantes bateu na sua porta pedindo votos para o candidato da esquerda, o então prefeito Marcones Sá (PSB). "Chegou um aqui, entrevistando, perguntando em quem eu ia votar. Ele era do outro partido, né? Eu disse: ‘se quiserem me escutar, escuta. Agora que meu prefeito vai ser Fabinho, vai'. Eu voto no que eu conheço mais", afirmou. Fabinho é o empresário Fábio Lisandro, que disputou a eleição pelo PRD em uma coligação com partidos da centro-direita em 2024. No ano seguinte, migrou para o PSD da governadora Raquel Lyra e segue localmente no campo adversário ao PT do presidente Lula. Na eleição deste ano, Angelita avalia votar na governadora Raquel Lyra, deve apoiar os candidatos a deputado aliados do prefeito, de partidos do centrão, e não abre mão do voto em Lula. Para a agricultora, não há qualquer contradição nas escolhas que pretende referendar na urna eletrônica. A decisão do voto para presidente vai além da memória dos benefícios de programas sociais que recebia antes de se aposentar. Um marco para sua comunidade foi a obra da transposição do rio São Francisco, cujo canal passa a poucos quilômetros de sua casa. "Lula fez coisa aqui antes que só vendo. Essa transposição aí, essa água aí todinha foi força de Lula. Não foi de Bolsonaro não, foi Lula", disse. As águas do São Francisco não chegam às suas torneiras. Uma cisterna, instalada a partir de um programa federal, abastece a casa com água da chuva e dos caminhões-pipa da prefeitura. Ela diz ser suficiente. Tem água para beber, lavar as roupas e pratos. Para os demais usos, busca em um riacho que passa ali perto. Para o cultivo, depende das chuvas do período do inverno: "Minha roça, eu planto e Deus molha". Seus cinco filhos deixaram a comunidade e vivem na zona urbana de Salgueiro. A caçula está erguendo uma casa nos arredores, mas não pensa em morar por lá. Deve ser um sítio para os momentos de folga. Angelita divide a casa com o ex-marido, que a deixou anos atrás para ganhar o mundo e depois decidiu voltar. Ela o aceitou como pai de seus filhos, mas não mais como marido. Vivem juntos sem muitos sobressaltos. Na família, todos costumam votar em Lula, e os únicos bolsonaristas são três sobrinhos, todos policiais. Na sua comunidade, o senador Flávio Bolsonaro (PL) tem raros apoiadores. "Aqui no pedaço não se fala em Bolsonaro, não. Ele pode até ganhar, mas o pessoal daqui para ele é pouco." Na entrada de casa, uma propaganda de uma candidata a vereadora, já um pouco desbotada, permanece na parede desde a última eleição. É uma conhecida da família que bateu em sua porta e pediu para colar o adesivo de campanha. Angelita não titubeou: "Eu disse ‘arroche’, pode botar". Nas urnas, confessa, a história foi diferente: votou em outro candidato.
Quilombola de Pernambuco vota em quem conhece: Lula e prefeito de centro-direita
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