Usar o próprio sofrimento e o de quem a outra pessoa ama como argumento para que ela relativize o que sente é uma das formas mais perversas e, infelizmente, mais comuns de manipulação emocional de casais em crise. É um golpe baixo usado por homens e mulheres, mas há um recorte de gênero a que prestar atenção. A pergunta foi enviada por uma mulher e, assim como essa leitora, acompanho diversas outras na clínica e nas minhas pesquisas, paralisadas ante a fragilidade da saúde emocional do parceiro. Parceiro que atribui a piora da depressão, a agressividade e o pouco foco no trabalho à escolha dela de terminar o casamento, como se esse fim fosse o aniquilamento emocional dele e dos filhos. Vale dizer que muitos desses homens passaram anos se recusando ao resgate do romance e a uma paternidade mais ativa. E que a decisão dessas mulheres não vem sem dor, medo ou culpa. Mas a recorrência de um presente que machuca, ofende e minimiza tanto suas dores quanto suas conquistas acaba se impondo ao sonho de uma vida familiar unida —e é aí que muitos homens as paralisam, projetando a possibilidade de um futuro difícil. Esses homens constroem um argumento tão violento quanto as noites de discussões permeadas por ameaças e apontamentos das supostas incapacidades dessas mulheres que, segundo eles, não teriam tanto valor quanto imaginavam ter. E quando ela, mesmo amedrontada, decide não se paralisar, o argumento se inverte. A mesma mulher que seria incapaz de nada passa a ser a única capaz, culpada e responsável por todo o caos. A ameaça assusta porque dá voz a um medo: o de traumatizar os filhos não só com a separação como com a convivência com um pai deprimido que usa a depressão para justificar comportamentos agressivos e autodestrutivos. E há, além do medo, a angústia de ver o parceiro, que ela ainda ama —só não mais como parceiro—, num estado frágil. Ao longo do casamento, foi ela a responsável pela regulação emocional das crianças e do marido. Foi ela quem o incentivou a procurar terapia e psiquiatra para que conseguisse nomear o mal-estar como depressão. Foi ela quem ultrapassou os próprios limites com medo de que ele chegasse ao dele e descontasse agressivamente nas crianças ou nela. Somos mais pacientes, mais resilientes, mais afetuosas. Não por natureza, mas por imposição social. Carregamos toda a economia do cuidado e ainda somos cobradas por carregá-la mais uma vez, em nome do amor. A que custo? A decisão de acabar o casamento não é o fim da preocupação com o atual marido, nem com os filhos. Não é, como ele insiste em afirmar, falta de cuidado: é parar de colocar o cuidado do outro antes do cuidado de si. Assim como só o amor não basta para manter um casamento, só o amor não basta para poupar as crianças dos atravessamentos da vida. Sei que existe a crença de que separar quando elas são pequenas é mais traumático, mas gostaria de te tranquilizar com pesquisas que foram buscar números para essa angústia. Em 1998, a pesquisadora Susan Jekielek acompanhou 1.640 crianças de 6 a 14 anos, cujos pais seguiam num casamento em conflito ou haviam se separado. Aquelas cujos pais ficaram juntos estavam pior em ansiedade e sintomas depressivos. E há um detalhe que responde ao medo da carta da leitora: a melhora não vem logo. Os primeiros meses serão turbulentos, sim. Isso não quer dizer que a sua decisão esteja prejudicando o desenvolvimento delas. Dois anos depois, as mesmas crianças já apresentavam melhoras significativas. E antes que você diga que vocês não brigam na frente das crianças, eu te digo: elas sabem. Elas sentem. Elas percebem os olhares distantes, os silêncios, a ausência de beijos e elogios. Manter um casamento esvaziado de romance em nome da estabilidade familiar é transferir para as crianças uma responsabilidade que não é delas. E, pior, é expô-las a um adiamento que multiplica as violências, pequenas e grandes, que vão minando cada integrante da família. Esperar a depressão melhorar para enfim se separarem não é um pedido de ajuda, é manipulação emocional. O sofrimento dele é genuíno. Usá-lo como chantagem, não. Validar a depressão não significa invalidar o pedido de divórcio. Compaixão não é postergar a decisão para quando ele melhorar: é se oferecer como rede de apoio e estimular que ele procure terapia, psiquiatra, os amigos. Até porque, enquanto ela for a única a sustentá-lo emocionalmente, ele não vai precisar aprender a se virar de outro jeito. Resta o fantasma de como esse pai deprimido vai lidar com as crianças, o medo de que o estado dele aumente a sensação de desamparo delas. Esse é o pai dessas crianças. Querer suprir o que ele não faz para poupá-las também não ajuda: um dia elas vão conviver com outras pessoas com questões de saúde mental, ou menos presentes do que gostariam. Postergar para proteger pode, paradoxalmente, ampliar o mal-estar. Não existe momento ideal para se separar. As crianças vão sofrer, vocês também. Mas todos sofrerão mais se permanecerem numa dinâmica já desgastada. Como dizem as instruções de segurança do avião, é preciso colocar a máscara de oxigênio primeiro em nós. Não somos mães de todos. Todas Discussões, notícias e reflexões pensadas para mulheres E se você também tem um dilema ou uma dúvida sobre suas relações afetivas, me escreva no colunaamorcronico@amorespossiveis.love. Toda quarta-feira respondo a uma pergunta aqui. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Quero me separar, mas ele me acusa de destruir a sa�de dele e a inf�ncia dos nossos filhos; devo esperar?
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