Neta de seringueiros do ciclo da borracha e filha de agricultores familiares, Jéssica Pereira dos Santos, 35, carrega a força de quem vive, ama e defende o seu lugar. "Sou filha da Resex do Rio Cajari", diz a professora, que mora no Aterro do Muriacá, localizado na unidade de conservação no sul do Amapá. É ali que atua como facilitadora da Rede Conexão Povos da Floresta em sua comunidade, uma das mais de 2.700 que já receberam o kit de conectividade da iniciativa cuja meta é levar conexão a 1 milhão de indígenas, quilombolas e ribeirinhos em isolamento digital na Amazônia Legal. Desde março, as 50 famílias da resex Cajari passaram a ter acesso à internet via satélite, graças à antena, roteador, celular, notebook e painéis de energia solar doados pela Rede Conexão, finalista do Prêmio Empreendedor Social 2026, na categoria Inovadores Sociais do Ano. "Quando a conexão chega, ela veio para atrelar a nossa ancestralidade com o novo", resume Jéssica, guardiã de uma conectividade consciente. Segundo ela, um dos impactos da chegada da tecnologia é o acesso a políticas públicas, reduzindo a necessidade de deslocamentos até os centros urbanos. "A inclusão digital ajuda a manter a juventude no campo." A seguir o relato da gestora educacional que se formou em pedagogia na Universidade de Brasília e voltou correndo para casa com a missão de lutar por mais dignidade para seu povo historicamente invisibilizado. "Por conta dos estudos, morei em Brasília por 2 anos, mas levei minha horta, meu tucupi, minha farinha. Nunca esqueci de quem eu era. Fiz pedagogia na UnB. Era meu sonho, mas sempre agoniada para voltar para casa. Sou muito ligada às pessoas, ao campo. Sou negra, quilombola, extrativista e ribeirinha. Até a chegada da internet na comunidade, nós estávamos esquecidos. Antes, nossos alunos concluíam o ensino fundamental e tinham que ir para a cidade. Hoje, com a conectividade, consigo deixá-los dentro da escola fazendo um curso online, se preparando para o Enem. Estou na gestão da escola desde 2020. Na pandemia, nós tínhamos muita evasão escolar. Começamos a trabalhar dentro do projeto político pedagógico o empoderamento das nossas crianças, enquanto sujeitos do campo, valorizando nossa cultura. Não era culpa delas querer ir para o shopping ou mudar para a zona urbana. As pessoas têm uma ideia de que o campo é atrasado. Então, quando a conectividade veio foi uma maneira de mostrar que nós estamos vivos e sobrevivendo da maneira que a floresta deixa. Quando a gente fala de floresta em pé não é só pela conservação, pela questão ambiental, mas para valorizar as pessoas que estão lá. Hoje, posso usar minhas redes sociais para mostrar como a nossa reserva extrativista é rica em biodiversidade. Se tenho um produto, coloco na internet e posso vender com mais facilidade. Doutor da floresta e ex-executiva de big tech lideram revolução digital na Amazônia Nossa intenção é criar uma associação para fomentar a renda de mulheres e jovens. Contribuímos com 50% da renda da reserva, produzindo tapioca, tucupi, açaí. Uma aluna que batalhou muito para ter um celularzinho faz vídeos mostrando a nossa cultura. É a juventude usando a conexão para reforçar nossa identidade. Logo que chegou a internet teve aquele frisson. Tudo que é novo traz medo. Era preciso controlar esse acesso, principalmente entre adolescentes e crianças. Mostrar que existe uma rede de pedofilia e de jogos. Estamos trabalhando isso na escola e com os pais. Falamos dos sites seguros. Conexão é importante, mas nós precisamos ter cuidado. Em um mundo globalizado, a nossa preocupação era estar conectado sem esquecer o nosso modo de vida tradicional. E quando a conectividade chega, ela veio para atrelar a nossa ancestralidade com o novo. Nós vivemos em um modo tradicional, indo para os rios, onde lavamos nossas roupas, vivendo da mandioca, da farinha e do açaí. Mas precisávamos do acesso à educação, à saúde. E a conectividade trouxe isso. Não preciso me deslocar do campo para a cidade para chegar até as políticas públicas. Nossos idosos podem acessar a aposentadoria e fazer uma prova de vida com a ajuda da IA Parente, desenvolvida pela Rede Conexão. Meu avô morreu no ano passado. Ele viveu o ciclo da borracha. Foi muitas vezes para as reuniões com Chico Mendes. Sou herdeira da luta deles para que nós tivéssemos acesso aos nossos direitos. Costumo repetir uma frase da Margarida Alves, uma trabalhadora rural que dizia: "Prefiro morrer na luta do que morrer de fome". E não temos só fome de comida, mas de dignidade, acesso, respeito, educação e saúde."
Queremos estar conectados sem esquecer o modo de vida tradicional, diz quilombola
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