O cantor sertanejo Geraldo Antônio de Carvalho, conhecido como Rick, que estava a bordo de um helicóptero que desapareceu em Santa Catarina na segunda-feira (21), começou a carreira cantando em bares de Brasília quando criança. Ele nasceu em Porto Nacional, no Tocantins, em 1966, e aos seis anos mudou-se com a família para a capital federal, onde começou a se apresentar, ao lado de uma das irmãs. A música entrou cedo em sua vida, por influência do pai, que cantava e compunha músicas de Folia de Reis. Rick passou por diferentes parceiros antes de encontrar aquele que mudaria sua carreira: Ivair dos Reis Gonçalves, o Renner. Eles começaram a trabalhar juntos em meados da década de 1980 e, por anos, tocaram em bares e casas noturnas, antes de conseguirem entrar no mercado fonográfico. Foi uma espera longa. A dupla chegou a gravar um trabalho independente e só lançou seu primeiro álbum por uma gravadora em 1992. Naquele momento, o sertanejo passava por uma transformação profunda. O gênero, associado durante décadas à música caipira, ganhava espaço nas rádios, na televisão e nas gravadoras, em um movimento capitaneado por duplas como Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo, Zezé Di Camargo & Luciano e João Paulo & Daniel. Rick & Renner chegaram um pouco depois. Não alcançaram o mesmo patamar comercial dos antecessores, mas construíram uma carreira de grande alcance, com mais de dez milhões de discos vendidos. Sertanejo bem-humorado, malicioso e sensual O momento decisivo da carreira de Rick & Renner veio em 1998. A música "Ela é Demais" —mais conhecida por seu refrão "uma deusa, uma louca, uma feiticeira"— transformou a dupla em um nome conhecido em todo o país. Foi nessa época que os artistas começaram a procurar maneiras de não serem apenas mais uma dupla de baladas românticas em um mercado cada vez mais concorrido. No álbum "Instante Mágico", de 1999, "Ela é Demais" dividia espaço com músicas que levavam o romance para outros territórios. Em "Cara-de-Pau", o casal briga, termina e volta, mas a relação é tratada com humor, "sem vergonha e sem juízo", como diz o refrão, antes de concluir que aquele amor "é tão gostoso". Já "Muleca" abandona de vez a balada romântica e aposta na dança e na sensualidade, como mostra o refrão "gruda, gruda na cintura da moleca/ faz trenzinho, faz boneca e deixa o corpo balançar". Esse caráter também é reforçado em "Na Pontinha do Pé", gravada com o grupo de pagode Molejo —uma aproximação, aliás, pouco usual naquele momento, quando, apesar de ambos estarem entre os grandes fenômenos da música popular, operavam em polos opostos. Em "Na Pontinha do Pé", a mulher dança, "rebola por cima" do cantor e é chamada de "gostosa". Hoje, pode parecer trivial, mas, para o sertanejo estabelecido da época —tanto aquele ligado à tradição das modas de viola quanto o romantismo das duplas de 1980 e 1990—, a combinação de sensualidade explícita, humor e pagode ajudava a deslocar Rick & Renner para um território menos convencional. Para Renner, havia uma razão para apostar nesse tipo de repertório. Em entrevista ao Jornal da Cultura em 2001, ele disse que gravar "Muleca" e "Cara-de-Pau" foi uma "audácia", "fugindo dos padrões". "Se a gente canta um forró fica legal, se cantamos um axé fica legal, música de raiz fica legal", afirmou. Era uma estratégia que já havia se mostrado frutífera com Leandro & Leonardo, que foram alçados ao estrelado com faixas ultrarromânticas como "Pense em Mim", lançada em 1990, mas no fim da década já apostavam em composições mais animadas, como "Cumade e Cumpade", que incorporava elementos de axé e reggae. Isso porque as baladas românticas tinham começado a perder fôlego comercial. Leandro & Leonardo, por exemplo, haviam vendido 2,85 milhões de discos em 1990, mas chegaram a 750 mil em 1996, segundo reportagens publicadas na época. Foi nesse ambiente que Rick & Renner encontraram uma oportunidade para se diferenciar. A partir do disco "Instante Mágico", a mistura do sertanejo com ritmos mais dançantes passou a ocupar um lugar central na identidade da dupla, em letras que exploravam um lado mais bem-humorado, malicioso e sensual do romance, em vez de apostar apenas no sofrimento amoroso. Essa mistura, aliás, tinha relação com a própria formação da dupla: enquanto Rick cresceu mais próximo da tradição sertaneja, Renner não vinha exatamente do sertanejo, mas carregava as referências do rock de Brasília que começou a ouvir ainda na adolescência. As idas e vindas com Renner e os trabalhos com outras duplas Além de cantar, Rick compõe e produz. Muitas das músicas que ajudaram a construir sua carreira também foram parar nas vozes de outros artistas do sertanejo. Ele compôs para João Paulo & Daniel, Leandro & Leonardo, Chitãozinho & Xororó, Zezé Di Camargo & Luciano e Bruno & Marrone, transitando entre os principais nomes do sertanejo romântico dos anos 1990 e artistas de gerações anteriores. É o caso de Gino & Geno, dupla surgida nos anos 1960 que passou por uma renovação com a participação de Rick, que produziu trabalhos e escreveu para eles sucessos como "Bebo Pa Carai", de 2005. Essa posição, aliás, explica por que Rick teve uma carreira solo quando a dupla se separou. Em 2010, os dois interromperam a parceria, e Rick passou a se apresentar como Rick Sollo. Eles voltaram a trabalhar juntos em 2012, romperam novamente em 2015 e retomaram a parceria mais uma vez em 2018. Rick mora em Orlando, nos Estados Unidos, e faz tanto shows solos como em parceria com Renner.
Quem � Rick, da dupla Rick e Renner, e como ele ajudou a renovar o sertanejo com letras bem-humoradas e sensuais
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.