Quem controla o futuro digital?

Quem controla o futuro digital?

Para a maior parte do mundo, a principal questão sobre inteligência artificial não é apenas se ela é segura ou perigosa. É outra: os países poderão desenvolver suas próprias soluções ou dependerão de tecnologias produzidas por poucas empresas estrangeiras? Imagine uma desenvolvedora em São Paulo criando uma startup. Ela pode pagar pelo acesso a um modelo de IA americano, sujeita a preços e contratos que podem mudar. Ou pode baixar um modelo chinês, executá-lo em sua própria infraestrutura e adaptá-lo ao português e às leis nacionais. Não é apenas uma escolha tecnológica. É uma decisão econômica e estratégica. A discussão ganhou força na Conferência Mundial de Inteligência Artificial, em Xangai, onde o presidente chinês, Xi Jinping, defendeu a IA aberta como forma de ampliar o acesso global à tecnologia, enquanto empresas chinesas oferecem modelos competitivos para download e Pequim amplia a cooperação com o Sul Global. Mas é preciso entender o que significa "aberto". A maioria dos modelos abertos disponibiliza apenas seus pesos, os parâmetros necessários para executar o sistema. É como receber um bolo pronto: você pode servi-lo e modificá-lo, mas não conhece a receita. Sem acesso aos dados de treinamento, não é possível reproduzir ou auditar integralmente esses sistemas. Por isso, muitos especialistas preferem falar em "pesos abertos" e não em código aberto. A distinção importa porque já vimos transformação semelhante com o software. Nos anos 2000, o software livre permitiu que países fora dos grandes centros desenvolvessem capacidades próprias. O Brasil tornou-se referência ao promover padrões abertos e fortalecer um ecossistema nacional que permanece na base da infraestrutura digital do país. A Índia construiu sistemas públicos digitais que podia adaptar, auditar e governar. O software livre não eliminou desigualdades, mas ampliou quem podia participar da economia digital. A discussão já é urgente. O estudo TIC Governo Eletrônico 2025, do NIC.br, revela que a IA está presente em 94% dos órgãos do Judiciário, 92% do Ministério Público, 83% do Legislativo e 55% do Executivo. À medida que a IA se incorpora às funções essenciais do Estado, é fundamental discutir qual infraestrutura sustentará essa transformação. Com a IA, o desafio é maior. Os modelos mais avançados exigem investimentos bilionários e capacidade computacional concentrada em poucas empresas. Se o único caminho for contratar serviços estrangeiros, países em desenvolvimento permanecerão dependentes de tecnologias que não controlam. Modelos baixáveis oferecem uma alternativa, ainda que imperfeita, mais próxima da autonomia. Essa abertura tornou-se instrumento de competição geopolítica. Empresas chinesas oferecem modelos de alta qualidade a custos inferiores aos dos concorrentes americanos, ampliando sua influência em mercados emergentes. Os Estados Unidos responderam restringindo tecnologias avançadas e desencorajando o uso de modelos chineses. O resultado pode ser paradoxal: quanto mais difícil for acessar modelos americanos, mais atraentes se tornam alternativas gratuitas. Isso não significa que modelos chineses representem a abertura ideal. Seus dados de treinamento permanecem fechados, incorporam restrições do ambiente regulatório chinês e sua disponibilidade depende de Pequim. Substituir uma dependência por outra não resolve o problema. A verdadeira questão não é se a IA aberta deve existir, mas quem define abertura. Um padrão internacional mais robusto deveria exigir transparência sobre os dados de treinamento, permitir auditorias independentes e ampliar o acesso à infraestrutura computacional. Há 20 anos, o Brasil mostrou que tecnologias abertas podiam ampliar autonomia. Não deveríamos aceitar escolher apenas entre alugar tecnologia de São Francisco ou de Pequim. Se a abertura apenas muda o proprietário da tecnologia, continuamos falando de dependência, apenas com um novo senhorio. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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