Em São Paulo, o barulho da cidade é meu despertador. Acordo ao som de sirenes, motocicletas, serras e bate-estacas. São pedreiros, entregadores, cozinheiros, motoristas, faxineiros e maquinistas de todos os tipos que, muito antes do sol nascer, já cruzaram a cidade para erguer o paraíso dos patrões. A cada novo ruído me sinto mais atrasado, cansado, falido e contrariado. Fazer o quê? Sigo em frente no batente. Na última quarta-feira (14), quando o despertador tocou, acordei pensando como é difícil ouvir a maior parte dos brasileiros cumprindo jornadas extenuantes e enfadonhas em troca de um salário miserável e um só dia de descanso. Fazer o quê? Fiz. Às 7h, arrumei minha trouxa, tranquei a casa, peguei a bicicleta e vesti meu boné vermelho "Lula 2022" (comprei em Brasília há quase quatro anos). Às 8h15, nos primeiros metros da avenida, um outro ciclista mirou o meio de minha testa. Mal expressou a primeira sílaba e logo entendi que de sua boca sairia um "Lula!" Gritamos juntos. Mas, para minha surpresa, ele completou: "ladrão!" Que merda! Naquela bicicleta e carregando aquele peso, certamente não era um patrão. Como pode, num dia tão importante, votar contra seus próximos sábados? Continuei com o boné. Cruzei a avenida Paulista de ponta a ponta, caminhei nas ruas Teodoro Sampaio e Treze de Maio, e usei as linhas verde e amarela do metrô —sempre com o boné vermelho. Ao longo de mais de 12 horas ziguezagueando pela cidade, devo ter cruzado o caminho de centenas ou de milhares de eleitores. E, para meu espanto, não ouvi mais nenhuma manifestação verbal. Em compensação, fui bombardeado por olhares tortos e muita cara feia. Me senti deslocado e sozinho, mesmo acreditando que metade daquele povo joga no meu time. Às 21h30, já chegando em casa e tentando me preparar para uma possível derrota, um casal de jovens olhou firme para meu boné e passou me encarando. Àquela hora, nem dei bola. "Bora, Lula!", gritou a mocinha. "Não acredito!", respondi. "Passei o dia com este boné e você é a primeira pessoa a me apoiar!" Fiquei satisfeito com o empate. "Bora, Lula!", gritou o companheiro dela… Minutos depois, o Senado Federal concluiu a aprovação final da PEC 221/2019, que estabelece a escala 5x2 no Brasil. Apaguei. A quinta-feira (15) amanheceu como uma qualquer —muito barulho e nenhum aplauso. Não consigo me acostumar com um Brasil que se cala TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. . Que país é este?
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