Inflação e corrupção, uma dupla imbatível. Os preços sobem, o americano médio grita. E Trump? Trump, juntamente com a família e os amigos, transformou o segundo mandato numa máquina de fazer dinheiro. É impossível não pensar na "nomenklatura" da antiga União Soviética: enquanto a elite do partido come caviar e bebe champanhe, o cidadão anônimo vai para a fila do pão e do leite. Em teoria, é possível manter este estado de coisas, se estivermos falando de uma ditadura, com polícia política e campos de "reeducação". Numa democracia, não. E os Estados Unidos são uma democracia. Nunca levei a sério os histéricos de plantão que viam em Trump o fim da república. É preciso não conhecer a república: sua descentralização administrativa, sua forte sociedade civil, sua tradição de litigância. Falo desses três porque o New York Times, em editorial, resolveu relembrar aos incréus o papel que tiveram nestas midterms. Foram os funcionários eleitorais que, apesar da pressão e das alegações de fraude, garantiram uma votação limpa e regular. Foram as organizações da sociedade civil, como a União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU) ou a League of Women Voters, que contestaram na Justiça as ordens executivas do presidente sobre o registro eleitoral e o voto pelo correio. Foram os juízes federais, alguns nomeados por Trump, que lhes deram razão. E que recusaram, decisão após decisão, entregar ao Departamento de Justiça os cadastros eleitorais dos estados. O jornal tem razão, mas Alexis de Tocqueville chegou lá primeiro. Quando viajou pelos Estados Unidos, na década de 1830, o aristocrata francês procurou saber como evitar que a "era da igualdade" degenerasse numa tirania da maioria. Entre os principais freios estavam precisamente os que vimos nestas midterms. Para começar, a descentralização administrativa: uma teia de autoridades locais que não respondem aos ditames de Washington. "As instituições municipais são para a liberdade o que as escolas primárias são para a ciência: colocam-na ao alcance do povo, permitem-lhe experimentar seu exercício pacífico e o habituam a fazer uso dela", escreveu Tocqueville. Os mesários e funcionários que contaram os votos são alunos dessa escola: formiguinhas sem dono que corroem a centralização abusiva. Por outro lado, o hábito do associativismo. Quem somos nós sem os outros? Presas fáceis para o poder autoritário, sem refúgio ou proteção. "Um déspota perdoa de bom grado aos governados não o amarem, desde que eles não se amem uns aos outros", escreveu brilhantemente Tocqueville. As associações que contestaram judicialmente os abusos de Trump foram essa barreira contra a tentação despótica. Por último, os juristas, essa "aristocracia" democrática que vela pelas regras, pela forma, pelo precedente. E que, nestas midterms, interpuseram a lei entre o presidente e o voto. Significa isso que Donald Trump terá dois anos de humildade e moderação? Pelo contrário: um animal ferido é um animal perigoso. Com o Congresso em mãos democratas, Trump terá menos espaço para governar internamente. Resta-lhe a política externa para fazer estragos. Meu ponto, porém, é outro: o sistema político e os costumes dos americanos (os "moeurs", como lhes chamava Tocqueville) são mais difíceis de subverter do que os apocalíticos imaginam. Quase 200 anos depois, a América de Tocqueville ainda resiste à América de Trump. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
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