Quando planejamos uma viagem longa, é natural olhar a previsão do tempo antes de sair. Ela ajuda a escolher o horário, a roupa e até o caminho. Mas ninguém decide o destino apenas porque pode estar chovendo hoje. Nos investimentos, muitas vezes fazemos justamente isso: damos importância demais à previsão da semana ou do mês e de menos ao destino. Nesta quarta-feira (16), investidores estiveram atentos às decisões de política monetária no Brasil e nos Estados Unidos. Antes dos anúncios, economistas discutem se os juros deveriam subir, cair ou permanecer onde estão. Depois deles, a atenção rapidamente passa para os comunicados sobre a reunião seguinte. É natural. As taxas de juros influenciam títulos, ações, moedas e praticamente todos os investimentos. O problema começa quando uma decisão de curto prazo passa a comandar um planejamento que deveria durar 30, 40 ou 50 anos. É comum encontrar investidores preocupados em acertar o próximo movimento dos juros para tentar ganhar alguns décimos a mais de rentabilidade. Ao mesmo tempo, muitos deles não sabem responder a uma pergunta aparentemente mais simples: qual retorno precisam obter para alcançar seus objetivos? Essa resposta não vem do Comitê de Política Monetário (Copom do BC). Vem do planejamento financeiro. Quando projetamos quanto alguém pretende gastar na aposentadoria, quanto consegue poupar, por quanto tempo fará esses aportes e qual patrimônio deseja deixar para a família, chegamos a uma informação fundamental: a taxa de retorno necessária para que o plano seja viável. Ela deveria ser uma das principais referências para a construção da carteira. Suponha que um planejamento mostre que determinado investidor precisa obter, em média, inflação mais 5% ao ano para atingir seus objetivos. Dependendo das condições de mercado, parte desse retorno poderá vir de títulos pós-fixados, prefixados ou indexados à inflação. Em outros momentos, poderá ser necessário recorrer a outras classes de ativos e aceitar alguma volatilidade. Isso não significa ignorar os juros ou as decisões de curto prazo dos bancos centrais. Se o mercado oferece uma taxa real elevada em ativos de menor risco, faz sentido aproveitá-la. Mudanças nas taxas também alteram preços, riscos e a atratividade relativa dos investimentos. A diferença está entre usar essas informações para ajustar uma estratégia e transformar cada reunião do Banco Central em motivo para reconstruí-la. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. Há uma diferença de escala que muitas vezes ignoramos. Podemos gastar horas tentando antecipar um movimento de 0,25 ponto percentual nos juros enquanto deixamos de lado decisões que se repetirão todos os meses durante décadas. Analisar como poupar R$ 1.000 a mais por mês durante 30 anos, por exemplo, a uma taxa real de 5% ao ano, pode acrescentar cerca de R$ 815 mil ao patrimônio, em valores de hoje. O impacto tende a ser muito maior do que acertar uma movimentação pontual da Selic. O mesmo raciocínio vale para a proteção. Buscar alguns décimos adicionais de rentabilidade enquanto a família permanece exposta a um evento capaz de comprometer anos de poupança é uma inversão de prioridades. Morte, invalidez ou uma doença grave podem interromper a capacidade de geração de renda justamente quando ela ainda é essencial para alcançar os objetivos da família. Talvez dediquemos atenção demais ao que não controlamos. Queremos prever a próxima Selic, a inflação, o dólar e o comportamento da Bolsa. Enquanto isso, deixamos em segundo plano decisões sobre as quais temos muito mais influência: quanto poupamos, quanto gastamos, como protegemos nossa família e qual risco precisamos assumir. A decisão desta quarta-feira importa. As próximas também importarão. Entretanto, você não controla qual será a Selic daqui a um ano. Pode, porém, descobrir hoje qual retorno precisa, quanto deve poupar e quais riscos precisa proteger. Para um plano de 30 anos, essas decisões provavelmente importarão muito mais que os próximos 0,25 ponto percentual decididos hoje pelo Fed ou Copom. Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Quanto as decis�es do Copom e do Fed de hoje afetam sua aposentadoria daqui a 30 anos?
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