Aquecimento rápido seguido de resfriamento busco. Bem, se eu saí do calor parisiense para a neve do Cerro Chapelco, na região argentina de Neuquén… eu posso dizer que fui pasteurizado? A mudança não foi tão bruta assim, admito. Entre esses dois destinos, fiz uma rápida escala em Paraty para fingir mais uma vez que sou DJ na festa desta Folha, na noite de sábado da Flip. Mas na última segunda já estava sobrevoando a Patagônia para chegar a San Martín de los Andes e lembrar como é um inverno de verdade. E com neve. Muita neve. Largado no meio de uma floresta pintada de branco com aquele silêncio que uma nevasca estranhamente traz, de repente me vi longe, bem longe, da onda de calor que atravessa a França, que para além da "canicule" que assola a capital ainda trouxe queimadas por todo o país. Deitado numa cama macia e gelada, olhando as copas das árvores cobertas de gelo e ouvindo, inevitavelmente, a trilha sonora da temporada, o novo álbum de Charli XCX, "Music, Fashion, Film", encontrei uma paz que não experimentava há muito tempo numa paisagem alva e fria que nós, brasileiros, tanto estranhamos e buscamos. Sou, desde criança, fascinado pela neve. A primeira vez que a senti com as minhas mãos foi também na Argentina, aqui ao lado de onde escrevo: Bariloche, até hoje um dos destinos mais procurados por esses "turistas tropicais". Mas essa região de Neuquén, nestes primeiros dias de visita, me pareceu uma opção um pouco mais charmosa. Sabe a sensação de estar em um lugar que ainda não foi totalmente descoberto? Pois… Claro que a infraestrutura de turismo está presente. Uma vez no topo do Cerro Chapelco, você encontrava de escolinhas de esqui, pistas pretas (a cor das descidas mais desafiadoras), até passeio de "snowmobiles". Aliás, foi pilotando um desses que me reconectei com a neve. Impossível você adentrar numa paisagem e não mergulhar na natureza —e dentro de si mesmo. Já vivi essa revelação em várias paisagens semelhantes pelo mundo. Das lembranças de infância em Bariloche a dias românticos em Cortina d’Ampezzo, nas montanhas Dolomitas, norte da Itália, sempre fui hipnotizado não apenas pela brancura da neve, mas também pelo tal silêncio que ela traz. Você nem precisa estar sozinho para sentir sua audição imediatamente abafar numa paisagem nevada. Vivi isso em Chamonix (França), no Valle Nevado (Chile), na Capadócia (Turquia). E novamente agora, em Neuquén. Longe de ser apenas um deslumbramento de quem cresceu passando as férias em tórridas (e belas) praias brasileiras, o contato com esse lado frio da natureza é uma atração genuína e profunda. Quase atávica. A cidade de San Martín de los Andes é ultra-acolhedora. Tem hotéis sofisticados como o que fiquei, Loi Suites, que fica dentro de um condomínio fechado com vista para as montanhas. E mesmo as acomodações mais simples são cheias de charme. Da trucha (sim, truta) ao matambrito de cerdo (um assado extraordinário de porco, não se confunda!), comi muito bem esses dias —e não vou nem falar dos vinhos… Mas a lembrança mais forte que vai ficar é de eu estar deitado no meio da neve, olhando o desenho daqueles galhos esbranquiçados, escutando David Cronenberg repetindo "No one lasts forever", pasteurizado e feliz. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Quando uma pasteuriza��o � renovadora
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