Quando um charuto � mais que um charuto

Quando um charuto � mais que um charuto

Às vezes um charuto é apenas um charuto, mas outras vezes, não. Em princípio, não é ilícito penal uma autoridade pública participar de degustações de charutos e uísques patrocinadas por agentes privados como Daniel Vorcaro, como teriam feito Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Paulo Gonet, Andrei Rodrigues, Ricardo Lewandowski em abril de 2024 em Londres, ou Cláudio Castro, Hugo Motta e Marcos Pereira em maio de 2026 em Nova York. O problema é que relações impróprias desse tipo já beneficiam o patrocinador muito antes de configurar um crime. Sabemos disso graças aos médicos. Eles passaram décadas recebendo desde pequenos brindes até polpudos complementos salariais da indústria farmacêutica. O caso, porém, foi investigado, não por policiais, mas por pesquisadores. Vários estudos mostraram que mesmo mimos de valor irrisório, como canetas, já bastavam para "comprar" a boa vontade do médico, que passava a receitar mais drogas do laboratório. O interessante é que, inicialmente, o baixo valor é um elemento importante do processo de cooptação. Ora, ninguém se vende por uma canetinha, o que dava ao médico a sensação psicológica de que não fazia nada de condenável. Idem para as degustações com autoridades dos três Poderes. Ir a eventos e festas não é em tese crime. São vários os mecanismos psicológicos em atuação aí. Um dos mais poderosos é a regra da reciprocidade. Somos seres profundamente sociais. Quando recebemos um favor, ficamos inconscientemente predispostos a retribuí-lo. À medida que a relação entre as partes evolui, evoluem também as autojustificações. Em algum momento, o comprador deixa de ser um agente com interesses e passa a ser um amigo. E não há nada de errado em receber presentes de um amigo, certo? Nem em fazer negócios com ele. Do ponto de vista individual, nunca é difícil racionalizar o próximo passo. Do ponto de vista institucional, cada passo extra em relações promíscuas entre agentes decisores e partes interessadas afunda mais a credibilidade da República. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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