No último dia 28 de setembro, as mulheres brasileiras saíram em passeata pouco divulgada pela mídia em comemoração ao Dia Latino-Americano e Caribenho de Luta pela Descriminalização e Legalização do Aborto. Foi acompanhando essa mobilização e assistindo a um pronunciamento de Rute Alonso, da organização União de Mulheres, que decidi escrever este texto. Alonso rememorou uma carta de quase 40 anos atrás, lida na Assembleia Nacional Constituinte por Amelinha Teles, fundadora da organização e de quem nos despedimos há duas semanas. Na carta, escrita em conjunto por movimentos feministas de todo o país, Amelinha fazia a defesa da emenda popular nº 65, pela legalização do aborto. O país discutia os fundamentos de uma nova ordem democrática, depois de duas décadas de uma ditadura que torturou, estuprou e assassinou mulheres nos porões, muitas vezes diante de seus próprios filhos. Superado aquele momento de horror, as mulheres organizadas reivindicaram participar da definição dessa democracia, incluindo o direito de decidir sobre a própria reprodução. Amelinha representava mulheres organizadas da sociedade civil e levou à frente um trabalho coletivo, construído fora daqueles salões masculinos. "Qualquer mulher, independentemente da classe social a que pertença, pode ser surpreendida por uma gravidez indesejada. Isso porque o desenvolvimento da ciência ainda não descobriu métodos 100% eficientes", afirmou. E prosseguiu: "Podemos afirmar, com toda certeza, que a grande maioria das mulheres que querem evitar filhos não recebe nenhum atendimento, orientação ou informação a esse respeito. Elas ficam à mercê da própria sorte, sozinhas e desesperadas, são obrigadas a recorrer a meios abortivos que as violentam e colocam sua própria vida em risco. São diversos os métodos usados pelas mulheres para fazer o aborto: agulha de tricô, talo de mamona, gargalo de garrafa e ervas e medicamentos tóxicos". Ainda de acordo com Amelinha, "segundo notícia do Jornal do Brasil (5/10/86), um estudo recente da ONU mostrou que, no Brasil, para cada 100 partos se realizam 50 abortos. Um cálculo conservador aponta a realização de 4 milhões de abortos anualmente no Brasil, que provocam a morte de 400 mulheres e levam 800 mil a sofrer sequelas gravíssimas, como a esterilização". Amelinha descreveu uma realidade que não difere da dos dias atuais, pois as mulheres seguem sendo criminalizadas. No final de semana, teremos eleições. De um lado, um candidato que admira o torturador de Amelinha e de tantas outras mulheres. De outro, um candidato que também foi preso pela ditadura. Dois projetos políticos antagônicos, porém, com um fim comum: o silêncio sobre o direito ao aborto. O primeiro candidato se filia a políticos que querem obrigar mulheres a parirem filhos de seus estupradores. Trata-se de um homem que não tem vergonha em falar em Deus, família e valores cristãos, mesmo que sua agenda de contatos no celular com o Daniel Vorcaro —um notável organizador de orgias com garotas de programa contratadas com dinheiro das aposentadas brasileiras— diga o contrário. Já o segundo, como eu disse em entrevista a Antonio Tabet, no UOL, representa o projeto político progressista brasileiro, que há anos trata a descriminalização do aborto como "na volta a mamãe compra". Para não melindrar os evangélicos, "agora não é a hora de falar sobre". Enquanto isso, as mulheres, sobretudo as mulheres negras, continuam morrendo em abortos inseguros e meninas violentadas são coagidas a parir. Ainda como disse na entrevista, as televisões e outros meios de comunicação em massa, que são concessões públicas, vêm há décadas sendo concedidos a grupos religiosos, que fortalecem seus discursos e ampliam sua influência nas decisões políticas de um Estado laico. A situação do aborto no Brasil segue como uma tautologia, um beco sem saída, como observam Ângela Boldrini, jornalista desta Folha, e Carolina Moraes, autoras do livro "Coreografia da Escolha: a Disputa pelo Aborto no Brasil". O Brasil poderia se inspirar em vizinhos latinos, como Argentina e Uruguai, ou, como a aristocracia brasileira tanto preza, olhar para os países da Escandinávia. Poderia, ainda, como a esquerda brasileira adora, olhar para a França. São lugares onde as mulheres conquistaram o direito ao aborto legal e seguro. Mas não. Seja a direita fascista, seja a esquerda acovardada, o Brasil segue a fórmula denunciada por Amelinha Teles. No país que é o quarto do mundo em casamento infantil, em que homens se recusam a usar preservativo e abandonam seus filhos, o direito à liberdade das mulheres segue sendo um assunto para outro momento. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Quando ser� a vez das mulheres?
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