Quando o m�dico vira Uber

Quando o m�dico vira Uber

Em pouco mais de duas décadas, o número de escolas médicas no Brasil cresceu de forma desenfreada, passando de 143 em 2004 para mais de 500 em 2026. Nesse curto período, o número anual de formandos aumentou de 14 mil para quase 50 mil. Assim, em menos de dez anos, haverá cerca de 1,1 milhão de médicos no país, um número de profissionais que o mercado já dá sinais de não conseguir prover colocação. Esse crescimento ocorreu principalmente em função de duas situações: 1 - a lei do Programa Mais Médicos, de 2013, que facilitou a abertura de novas faculdades ao não exigir que fossem definidos previamente os campos de estágio para a área clínica, que é o grande gargalo da maioria delas; e 2 - o fato de escolas de medicina se tornarem um grande negócio, com mensalidades variando de R$ 12 mil a R$ 20 mil, o que explica o porquê de mais de 90% das vagas hoje serem privadas. É preocupante a qualidade de ensino em muitas delas, uma vez que não existem no país professores qualificados nem centros de estágios clínicos em número suficiente para todas. A maioria das instituições ligadas ao SUS, que seriam a base para esses estágios, são essencialmente assistenciais e não voltadas ao ensino —algo que requer uma dinâmica distinta. O resultado da expansão do número de escolas médicas pôde ser recentemente constatado pelo Enamed, exame aplicado pelo MEC que, mesmo com limitações metodológicas, avaliou formandos de mais de 300 faculdades e mostrou níveis de conhecimento muito baixos para alunos de um terço delas. Ou seja, faculdades preparando mal seus alunos. Por outro lado, a avaliação das escolas médicas particulares, em andamento pelo Ministério Público Federal, começa a identificar acentuadas falhas em muitas delas nos quesitos corpo docente e instituições para estágios. Boa formação graduada é essencial, uma vez que 40% dos médicos brasileiros não cursaram programas de residência médica —de grande importância para a capacitação em áreas específicas, mas disponíveis no Brasil para menos da metade dos formandos. Vale ressaltar que, em vários países, a residência é obrigatória para que o profissional possa exercer qualquer atividade clínica. Médicos não bem preparados implicam riscos à população, que terá de conviver com um número crescente de más condutas e erros. Adicionalmente, é preciso pensar naqueles que cursam faculdades que não qualificam seus alunos de maneira apropriada —muitos desses alunos esgotam os recursos financeiros de sua própria família para completar os estudos graduados. Tendo em vista um mercado de trabalho que fica cada vez mais saturado, para muitos tem se tornado necessário procurar exercer outra atividade não relacionada à sua formação. Certamente terão dificuldades, já que que o ensino médico é restritivo, ou seja, não prepara o aluno para nada que não seja o exercício da medicina. Assim, com enorme tristeza, já se vê jovens médicos trabalhando como motoristas de Uber. Que desperdício! As perguntas-chave: 1 - devemos aceitar essa situação que coloca no mercado médicos mal preparados? e 2 - é justo criar falsas expectativas para centenas de milhares de jovens que não conseguirão atuar como médicos em um mercado saturado? Em benefício da população e em respeito aos jovens estudantes, é preciso coragem política, baseada em premissas técnicas, para corrigir os rumos e implantar mecanismos para que faculdades que não apresentam condições mínimas para preparar os futuros profissionais deixem de funcionar. O tempo dirá. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Original Source

Read the full article at Www1 →

KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.