Quando o investidor vira advogado

Quando o investidor vira advogado

Imagine um engenheiro que descobre uma falha no projeto de uma ponte e, em vez de refazer os cálculos, começa a procurar argumentos para provar que a estrutura continuará de pé. Ele ignora os testes desfavoráveis, desqualifica quem aponta o problema e seleciona apenas as evidências que confirmam sua primeira avaliação. Ninguém gostaria de atravessar essa ponte. No entanto, muitos investidores fazem exatamente isso com o próprio patrimônio. Antes de investir, eles se comportam como analistas. Pesquisam, comparam alternativas, avaliam números e procuram entender os riscos. Depois que tomam a decisão, porém, mudam de função. Passam a agir como advogados. Deixam de investigar se continuam certos e passam a defender a escolha que fizeram. Nada contra os advogados, naturalmente. Em um processo, sua função é reunir os melhores argumentos para defender a posição de seu cliente, seja ele inocente ou culpado. O advogado não está ali para julgar, apenas para defender sua posição. O problema surge quando o investidor transforma o mercado em um tribunal e imagina que seu objetivo é provar que não errou. Por exemplo, ele compra uma ação e, algum tempo depois, os resultados da empresa pioram. A dívida cresce, as margens diminuem e os concorrentes ganham espaço. Em vez de reavaliar a tese, procura relatórios otimistas, vídeos que confirmem sua convicção e explicações para mostrar que a queda é apenas temporária. Toda informação favorável parece relevante. Qualquer evidência contrária parece exagerada. Esse comportamento não se restringe apenas a ações, mas a todas as decisões de investimentos, passando por imóveis, câmbio, fundos imobiliários, renda fixa e outros. Esse comportamento é conhecido como viés de confirmação. Depois de formarmos uma opinião, tendemos a buscar informações que a sustentem e a evitar aquelas que nos obrigariam a reconsiderá-la. Nos investimentos, esse viés ganha ainda mais força porque admitir um erro também significa reconhecer que nosso julgamento inicial pode ter falhado. Quanto mais tempo, dinheiro e convicção o investidor deposita em uma posição, mais difícil se torna reconsiderá-la, mesmo quando os fundamentos deixam de justificar a decisão. Nesse momento, ele já não está apenas avaliando uma empresa, um fundo ou um título, está defendendo sua própria capacidade de julgamento. Por isso, o investidor deveria se comportar mais como um engenheiro. O engenheiro não tenta convencer a ponte de que ela deve permanecer de pé. Ele mede, calcula, testa premissas e procura justamente os pontos em que seu projeto pode falhar. Se novas evidências revelarem um risco que não havia sido previsto, ele altera o projeto. Seu compromisso não é com o cálculo anterior, mas com a segurança da estrutura. O filósofo Karl Popper defendia que uma hipótese deveria ser submetida a tentativas de refutação, não apenas à procura de confirmações. Uma ideia se torna mais robusta quando resiste aos esforços para provar que está errada. Esse princípio, que está na base do método científico, também deveria orientar o investidor. Os melhores investidores costumam agir exatamente assim. Em vez de colecionar argumentos favoráveis às próprias decisões, procuram responder à pergunta mais desconfortável de todas: "O que faria essa tese estar errada?". Quanto mais difícil for encontrar uma resposta, maior deveria ser o esforço para procurá-la. Uma pergunta simples ajuda nesse exercício: se eu não tivesse esse investimento hoje, compraria novamente esse mesmo ativo nas condições atuais? Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Essa reflexão obriga o investidor a separar o passado do futuro. O preço pago, a convicção inicial e o tempo dedicado à posição pertencem ao passado. A decisão de mantê-la depende apenas das perspectivas e dos riscos existentes hoje. No tribunal, um advogado pode vencer ao construir uma argumentação mais convincente. No mercado, não há juiz a ser persuadido. Existe apenas a realidade. Errar faz parte dos investimentos. Empresas surpreendem, cenários mudam e riscos improváveis acontecem. O problema não está em cometer um erro, mas em deixar que o orgulho impeça sua correção. O mercado raramente perdoa quem transforma um erro em convicção. Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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