As imagens de pessoas ilhadas sobre carros no túnel do Anhangabaú, no centro de São Paulo, durante o temporal desta quarta-feira (15), exigem uma discussão sobre a capacidade da metrópole de prevenir desastres e proteger sua população. A chuva intensa precisa ser considerada na avaliação do episódio. Mas explicar que o volume superou a capacidade das bombas, como afirmou a Prefeitura de São Paulo, é apenas o início da resposta. É necessário esclarecer o que aconteceu antes: quais riscos eram conhecidos, quais medidas estavam disponíveis e como os alertas orientaram as decisões de operação e trânsito. Prevenção e preparação são responsabilidades complementares. A prevenção envolve reduzir vulnerabilidades, executar intervenções e compatibilizar a ocupação urbana com as condições ambientais. A preparação exige monitoramento, manutenção, equipes treinadas e protocolos capazes de antecipar situações perigosas. O planejamento municipal já identificava, em 2022, intervenções para a bacia do Anhangabaú. No levantamento de agosto de 2026, apresentado na nova edição do Plano Diretor de Drenagem, os reservatórios Avanhandava e Bandeira permaneciam em estudos. A praça de infiltração e retenção 9 de Julho e o Pôlder Mercadão apareciam em projeto (pôlderes são áreas baixas, normalmente sujeitas a inundações, protegidas por diques, comportas e sistemas de drenagem e bombeamento para permitir sua ocupação ou uso). Isso não permite afirmar que essas intervenções evitariam o alagamento. Essa conclusão depende de avaliação hidráulica. Permite, entretanto, perguntar por que ainda não foram entregues, quanto poderiam reduzir os riscos e quais medidas provisórias protegem a população enquanto sua implantação não ocorre. Os planos antecedem as previsões mais recentes sobre o El Niño. Não seria adequado exigir que antecipassem um prognóstico específico divulgado posteriormente. Entretanto, novos prognósticos devem modificar a preparação: orientar manutenção, testar equipamentos, reforçar equipes e revisar procedimentos nos pontos críticos. Também é necessário avaliar se o dimensionamento das intervenções considera os cenários climáticos futuros. Uma infraestrutura concebida para funcionar durante décadas precisa ser examinada diante da possibilidade de mudanças na frequência e na intensidade das chuvas. No caso dos túneis, há uma responsabilidade operacional incontornável. Quando a capacidade de drenagem está próxima de ser superada, o monitoramento deve orientar o bloqueio dos acessos. A apuração precisa reconstruir a sequência dos alertas, da elevação da água e das decisões de interdição. Emitir um alerta só produz proteção quando existem responsabilidades definidas e capacidade de agir a tempo. A prevenção também exige olhar para toda a bacia. Reservatórios, galerias e bombeamento devem integrar-se a áreas verdes permeáveis, jardins de chuva e espaços de retenção. As decisões de zoneamento precisam considerar o efeito conjunto das transformações urbanas sobre o escoamento. A maior cidade da América Latina não pode permanecer tão vulnerável a riscos conhecidos. A prefeitura deve divulgar os registros da operação, explicar os atrasos e apresentar recursos e prazos para as intervenções. As pessoas presas no Anhangabaú tornam essa cobrança urgente: o que será feito antes do próximo temporal? TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
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