Quando minha m�e tinha a minha idade, ela era mais velha do que eu

Quando minha m�e tinha a minha idade, ela era mais velha do que eu

Meu aniversário é amanhã. Na verdade, em novembro, mas, como o tempo não tem tamanho, eu não sei quanto vai durar este mês. Nessas épocas em que um ciclo parece estar terminando, fico tentando entender o tempo das coisas e pensar no meu próprio tempo. Na infância, tínhamos muito. O tempo era milionário: as férias pareciam uma eternidade, a terceira série parecia uma faculdade inteira. Cada novidade era uma descoberta; cada invenção, um acontecimento; até o tédio podia ser um evento. Hoje, setembro encosta no Natal, as luzes e as lojas apressam uma coisa que já anda depressa demais. Dizem que o tempo passa mais rápido com a idade. É verdade que, quando somos jovens, quase tudo é novidade, e isso alonga o tempo. Mas não é só isso. O tempo envelhece quando tudo parece uma repetição, quando a gente para de se espantar. O relógio sabe contar, só isso. Não traduz o tempo. O tempo não tem tamanho, e por isso a vida cabe em medidas tão diferentes. Quando minha mãe tinha a minha idade, ela era mais velha do que eu sou. Para quem prometeu amar para sempre, a vida é longa demais —a eternidade tem um prazo exíguo. Para quem perde um avô, a vida é curta demais, porque avôs, estes sim, deveriam ser eternos. Não faltam formas de preencher o tempo sem habitá-lo. Três horas no Instagram se evaporam. Na rolagem infinita, o tempo não tem onde pousar, e voa justamente por isso. As mesmas três horas numa praia duram muito mais. Uma boa companhia pode fazer de três horas uma vida inteira. O relógio vai insistir que é a mesma quantidade, mas não vai conseguir explicar por que cinco minutos esperando o médico sair de uma cirurgia não são os mesmos cinco minutos com um pedaço de chocolate na boca, que também não são os mesmos cinco minutos antes de um primeiro beijo. Há uma crueldade na contabilidade do tempo. Ele passa a vida inteira somando aquilo que está tirando de nós. Ninguém conseguiria viver ouvindo o tique-taque de uma contagem regressiva, como numa bomba-relógio. Pelo menos os relógios tiveram a delicadeza de contar para frente. Mas, uma hora, fatalmente, os minutos serão ouvidos. Um amigo que sofreu um infarto este ano hoje me parece mais jovem do que há cinco. Começou a fazer coisas novas e, principalmente, a perceber mais as coisas. O tempo não voltou, mas ganhou outra cadência: quem sabe a urgência que o tempo merece, paradoxalmente, passa a tratar a vida com mais calma. É curioso que a vida parece ganhar mais nitidez quando se encosta na consciência da finitude (o tempo muda de tamanho depois que ele termina). É a história do menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicente. Quando percebeu que faltavam poucas, passou a roer o caroço. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Os estoicos diziam que a parte da vida que realmente vivemos é pequena; todo o restante, na verdade, não é vida, mas tempo. Guardar para começar a viver "depois de", "se", "quando" é transformar o teatro em um eterno ensaio. É tentador adiar, porque, olhando para frente, a vida ainda parece enorme: tantos amanhãs, tantos dias que ainda não aconteceram, tantas pessoas, tantos lugares. O futuro é largo porque ainda é vazio e nele parecem caber todas as vidas que imaginávamos viver. "Amanhã é só um advérbio de tempo", teria dito Graham Greene. Praia, chocolate, beijo, avô, espanto: isso é substantivo. Honrar o tempo talvez seja isto. Encher o advérbio de substantivos. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Original Source

Read the full article at Www1 →

KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.